O texto abaixo, de autoria do Frei Betto, foi extraído do livro
Militantes do Reino, Catecismo popular, que é parte da Coleção Fé e Libertação,
publicado pela Ed. Ática. Esse é apenas o capítulo 7 do livro, que merece ser
lido em sua íntegra, mesmo sendo um pouco antigo. Mas, antigo por antigo, a
Bíblia nos mostra que “velhos” livros podem nos trazer grandes ensinamentos,
não é mesmo?
Segue abaixo o texto. Contando
as imagens, são apenas quatro páginas, mas o ensinamento é muito grande.
Aproveite!
CEBs - Sementes da Igreja
renovada
O fato
Ao início dos anos 60 surgiu entre
as classes populares do Brasil um novo modo de a Igreja ser: as Comunidades
Eclesiais de Base. As CEBs são grupos de 20 ou mais pessoas que se reúnem uma
ou duas vezes ao mês na capela da roça, no sítio do pequeno agricultor, no
salão da casa paroquial, no centro comunitário da vila, no barraco da favela,
para refletir, nutrir e celebrar sua vida de fé.
São comunidades porque as pessoas se conhecem
pelo nome, partilham suas vidas e seus
problemas, põem em comum seus bens e seus esforços, lutam juntos por melhorias
no bairro, conquista da terra ou da moradia, uma vida melhor. São edesiais porque o eixo em torno do qual giram é a Palavra de
Deus, o uso da Bíblia dentro da realidade conflitiva em que vivem, a comunhão
com a Igreja, da qual são células vivas. São de base porque
integradas por subempregados, aposentados, jovens, lavradores,
operários, donas de casa, enfim, gente pobre e oprimida que forma a base da
sociedade.
Inúmeros líderes e dirigentes de movimentos populares, sindicais e
políticos tiveram nas CEBs o início da sua atuação a
serviço da conquista de uma nova sociedade
brasileira, sem oprimidos e opressores.
O trabalho
das CEBs identifica-se com a atuação pastoral
de movimentos eclesiais como a PO (Pastoral
Operária), a CPT (Comissão Pastoral da Terra), o Cimi (Conselho
Indigenista Missionário) e tantos outros
setores de pastoral especializada.
A Igreja que a
gente quer
Como deve
ser uma Igreja germe e ferramenta do Reino?
A Igreja católica no Brasil e na América Latina passa por uma profunda mudança. Mudança
de qualidade, como a semente da laranja vira árvore, laranjeira. Laranja e
laranjeira têm a mesma raiz.
Mas são de qualidade diferente: semente é
diferente da árvore que é diferente da fruta. Assim a Igreja vem plantando uma
semente no chão da vida do povo. Semente fica debaixo do chão, a gente não vê.
Pode até pisar em cima dela! Mas ela acaba germinando e produzindo frutos.
Que frutos esperamos das sementes lançadas pelas Comunidades Eclesiais de Base e por todos esses grupos pastorais
identificados com a opção
pêlos pobres?
Quem planta
café não espera colher batata. Espera colher
café. Assim, vejamos o que esperamos colher
dessas sementes que nas cidades e no campo a gente simples do povo está
plantando no chão da vida com a força da
fé:
Uma Igreja povo de Deus
Uma Igreja
que não seja só de padres e bispos. Seja também
dos leigos. O engenheiro pode saber projetar a casa, mas é o trabalho dos
pedreiros que põe a casa de pé. Cálculo de engenheiro não basta para fazer a
casa, fica no papel. Família nenhuma mora em papel, mora é em casa de pedra,
tijolo, madeira e telha. Quem faz a casa é o trabalho do pedreiro, do
carpinteiro, do bombeiro, do eletricista etc. Mas casa sem cálculo e sem planta
sai errada. Por isso o engenheiro é importante. Porém, sozinho ele não ergue a
casa.
O mesmo
acontece na Igreja: padres e bispos sozinhos não são a Igreja nem fazem a Igreja. A Igreja é o povo que tem fé em Deus
e amor ao próximo. Dentro da Igreja cada
um tem a sua função e serviço, como na construção da casa: um toma conta da capela,
outro cede sua casa para a reunião da comunidade, outro anima o grupo de
jovens, outro organiza as festas, uma equipe visita os doentes, outra promove
os cursos bíblicos, outra ensina o catecismo às crianças etc. O padre é como o
engenheiro: anima a comunidade, ajuda na orientação. Mas qualquer obra pode ser
tocada sem que o engenheiro fique lá o dia todo. Os operários sabem fazer as coisas. Na Igreja também todos devem saber fazer as coisas, pois todos são responsáveis:
leigos, religiosas, padres e bispos. Ninguém é melhor do que o outro,
pois todos têm a mesma importância. O dono da casa é Jesus Cristo. Cada um de
nós é um tijolo da casa.
Uma Igreja popular
Igreja feita de povo e não apenas de gente que tem dinheiro e prestígio. Jesus e os apstolos eram pobres e conviviam com os pobres. A Igreja
também deve ser simples e nela os
pobres devem ocupar os primeiros
lugares. Como Jesus deu preferência
aos oprimidos, a nossa Igreja deve
dar preferência à gente
trabalhadora, ao operário, ao
desempregado, ao jovem que estuda e trabalha, ao aposentado, ao
agricultor, ao sem-terra, ao bóia-fria. Na sociedade capitalista o pobre serve ao rico.
Na Igreja o rico deve servir ao
pobre (Mc 10, 17-22).
Uma Igreja comunidade
Massa é diferente de comunidade. Quando
o templo está cheio de gente assistindo à missa, pode ser que aquelas pessoas
nada tenham de comum entre si: isso é massa. Na massa as pessoas estão umas ao
lado das outras. Na comunidade as pessoas estão umas em frente das outras, se conhecem
pelo rosto e pelo nome. Há algo de comum entre elas. Por isso devemos dinamizar
a formação de CEBs. Onde se reúne um grupo de cristãos da mesma escola, rua,
bairro, local de trabalho ou área rural, aí existe uma CEB, uma comunidade de
Igreja.
Uma Igreja cristocêntrica
Eta palavra complicada! Mas significa coisa
bem simples: Igreja onde o Cristo esteja no centro. Tem
muita igreja por aí onde
o centro é ocupado pelo dinheiro que os fiéis podem pagar pelos serviços
litúrgicos. Ou no centro estão a Nossa Senhora Aparecida, o Papa ou o São
Benedito. Tudo isso tem o seu valor, menos negar serviços litúrgicos ao pobre
que não tem como pagá-los. Como também não faz sentido enfeitar a igreja luxuosamente
para o casamento do rico e exigir dos trabalhadores terno e gravata e vestido
de noiva! Não devemos trocar o motor pelos acessórios. Carro depende é do
motor. Na Igreja o motor é Jesus Cristo e o destino, o Reino. Ele está vivo
entre nós e confia em cada um de nós.
Vamos fazer em grupos
Uma representação teatral, improvisada, mostrando:
1. Como era
a Igreja de antigamente.
2. Como
vemos a Igreja hoje.
3. Como
queremos que a Igreja seja.
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