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segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

O fruto da justiça será a paz



O Círculo Bíblico da Comunidade Eclesial Cristo Rei realiza nesta segunda-feira (26) o segundo encontro de reflexão sobre a CF 2018.

O tema do encontro será "O fruto da justiça será a paz" (Is 32, 17).

A reflexão será iluminada por Isaías 32, 15-20. Você é nosso(a) convidado(a) especial. A reunião começa às 20h.

A CEB Cristo Rei fica na rua Major Freire, 792 (paralela à av. Fagundes Filho, na altura do posto e da padaria Dona Deola, próximo à estação São Judas do Metrô).

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

COMUNIDADES ECLESIAIS DE BASE E SUA INSERÇÃO NA SOCIEDADE


Pe. Vileci Basílio Vidal[1]

As comunidades Eclesiais de Base (CEBs) no Brasil sempre se espelharam nas comunidades camponesas de resistências – Canudos, Contestado, Caldeirão - onde a vivência da fé proporcionava a mística da luta pela libertação, assim como o cristianismo entre os primórdios. A palavra “mística”, neste caso, “sinaliza a dimensão espiritual e ética do socialismo, a fé no combate revolucionário, o compromisso total pela causa emancipadora, disposição heroica para arriscar a própria vida” (LÖWY, 2005, P. 106).
Celebramos neste dia 12 de fevereiro de 2016, os 70 anos da morte do Beato José Lourenço Gomes da Silva, líder da comunidade do Sítio Caldeirão da Santa Cruz do Deserto que fora destruída pelas forças militares do governo em 11 de maio de 1937, mas somente 54 anos depois de sua destruição e após 45 anos da morte do beato, o que era oculto se manifestava através da ocupação das terras do Caldeirão pelo Movimento dos Sem Terra – MST. E os atores principais deste movimento, que procurou fazer conhecer o que era ignorado, foram camponeses integrantes da comunidade do Assentamento 10 de Abril que, perante outras formas de agricultura familiar não camponesa, tentam patentear a ideia da reconstituição do campesinato baseado numa agricultura familiar socioambiental e inspirada na história do Caldeirão do beato Zé Lourenço. Ou seja, a ideia inovadora é fazer do Assentamento 10 de Abril uma referência da memória do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto como ponto de cultura “Caldeirão Vivo” desse patrimônio sociocultural.
O problema da reconstituição do campesinato tem sido a modernização e tecnificação. Esse é o dilema camponês para contrabalançar as exigências do mundo exterior em relação às necessidades de seus familiares. Diante desse problema de razão social do capitalismo, surgem duas estratégias completamente diferentes como saídas para o campesinato brasileiro: a primeira delas é desenvolver a produção através de outros modos da agricultura familiar para atender o mercado; a segunda, reduzir o consumo. Frente a estas duas estratégias, o campesinato brasileiro, sobretudo no Nordeste, apenas consegue afirmar a segunda estratégia devido o rendimento ser à custa do próprio esforço da família numa cultura de subsistência. A redução do consumo se da pela eliminação de suas compras no mercado ao essencial, isto é, cria-se uma relação de confiança tanto quanto na capacidade da família produzir os alimentos básicos como os objetos necessários, sem precisar sair dos limites da sua terra.
O Caldeirão do beato Zé Lourenço conseguiu dar uma resposta a esta estratégia através de uma agricultura diversificada: algodão, cana-de-açúcar, árvores frutíferas, mandioca, milho, arroz, feijão, café, criação de animais, vazante de capim; e pela capacidade de produzir seus próprios objetos tanto de trabalho como de uso pessoal através de oficinas de utensílios necessários: oficina de ferreiro, oficina de carpinteiro, flandeiro, sapateiro, oleiro, coureiro, oficina de costura e outros, como produto de limpeza, medicina alternativa etc., não produzindo para o mercado, mas para o próprio consumo da comunidade.
Ao contrário do Caldeirão, a comunidade do Assentamento 10 de Abril, já com os seus 25 anos de posse da terra, ainda passa por um tipo de adaptação, uma combinação de atividades destinadas a sustentar o cultivador em sua luta pela sobrevivência individual e familiar, como de toda a comunidade de assentados, dentro de uma ordem social que o ameaça de extinção, podendo se configurar em um “determinismo econômico” nas relações entre campesinato e o capitalismo. Porém, a base de sustentação para o enfrentamento deste perigo tem sido o resgate da memória do Caldeirão e a apropriação de novas tecnologias para a desenvoltura de uma agricultura familiar camponesa socioambiental.
Podemos concluir este artigo afirmando que, enquanto o Estado segue a lógica da globalização, atuando claramente ao lado do capital, tentando transformar o camponês em agente do próprio Estado, através do modelo de agricultura familiar que atende a estratégia de incrementar a produção para o mercado; por outro lado, ainda existe uma resistência por parte daqueles camponeses que, no seu relacionamento com a terra, pensam na conservação da mesma como herança e que não a colocam a serviço do capital, mas do bem estar da família, considerando a diversidade camponesa como canal de força para o seu protagonismo no plano de reforma agrária para o Brasil. E as CEBs, enquanto Igreja inserida na sociedade procura alimentar esta utopia!

REFERÊNCIAS
CARVALHO, Horácio Martins. O campesinato no século XXI: possibilidades e condicionantes do desenvolvimento do campesinato no Brasil. Petrópolis: Vozes, 2005.
LÖWY, Michael. A mística da revolução. In: Folha de São Paulo, Caderno Mais; (Tradução de Claro Allain) 01/04/2001 – disponível em http:/www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs0104200110.htm
VIDAL, Vileci Basílio. O protagonismo dos camponeses na modernidade: inovação e mudança no território do Cariri. Vila Velha: Editora 4 Irmãos, 2014.




[1] Coordenador de pastoral na Diocese de Crato, assessor da Ampliada Nacional das CEBs e professor de filosofia.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

CARTA DA 4º AMPLIADA NACIONAL DE CEBs


Miriam, a profetisa tomou nas mãos um tamborim
e todas as mulheres a seguiram com tamborins, formando coros de danças.
E Miriam lhe entoava: “Cantai a Javé, pois de gloria se vestiu!” (Ex 15,20-21)


Romeiros e romeiras do Reino do campo e da cidade viemosaqui,de todos os recantos do Brasil, para IVAmpliada Nacional de Comunidades Eclesiais deBases (CEBs),no Vale do Cariri coração do nordeste. Como o povo respondeu ao chamado de Miriam, que convidava a dançar ao Deus na vida, assim nós, respondemos ao chamado do Deus da esperança que anima o trem das CEBs rumo ao 13º Intereclesial.
É com muita alegria que convidamos você a entrar neste cordão da dança, que se realizará de 07 a 11 de janeiro de 2014, em Juazeiro do Norte, Diocese de Crato, Ceará.
Como o tamborim de Miriam convocou o povo, nos sentimos convocadas e convocadosao ritmo alegre da sanfona para dançar a justiça e profecia a serviço da vida, como resposta aos gritos de dor provocados pelos projetos que signifiquem sinais de morte para o nosso povo, que estão sendo implantados em todo Brasil.
Nesta ultima ampliada num clima de profunda mística, olhamos a realidade que desafia a vida em plenitude do nosso povo. Alegramo-nos com a partilha do trem das CEBs,que passa em cada comunidade, diocese e regional. Lá, onde os vagões das CEBs passam, reacende a chama da esperança na realização da sociedade do bem viver e do bem conviver, em comunhão com todas as CEBs da grande Pátria, América Latina e Caribe.
 Como é próprio da nossa caminhada de igreja compartilhamos os novos trilhos que estão sendo postos, através do serviço das diversas equipes, para que o trem das CEBs chegue à estação do Ceará, debaixo do chapéu de padre Cicero, no calor do grande caldeirão, das lutas, culturas, sonhos e esperanças para vivenciarmos a grande proposta do Reino que já se faz presente.
Já sentimos o gostinho desta festa no lançamento do Texto base e das Cartilhas na Casa da Mãe das Dores e das Alegrias, que no decorrer destes anos tem acolhido romeiros e romeirasqueaqui vem; como também, saboreamos o prazer da preparação das diversas famílias, paroquias e comunidades que acolherão os delegados e delegadas.
Herdeiras e herdeiros das grandes lutas populares pela libertação como o foram Palmares, Canudos e Caldeirão, somos hoje convocados e convocadas pela firmeza da fé dos beatos e beatas do povo de Deus, Antônio Conselheiro, Maria de Araújoe José Lourenço, pelo amor à justiça e vida do padre Ibiapina e padre Cicero.
Não perca o trem se prepare e vem também! O trem tem datas e horários marcados: até 31 de maio 2013 confirme o seu “bilhete” - ficha de inscrição.
Sob o olhar maternal e solidário da Mãe das Dores e das Alegriasacolhemos sua benção para que nossos passos sejam firmes como foram os dela.

Um abraço amoroso de toda Equipe da Ampliada Nacional das CEBs
Amém, Axé, Auere, Oxente, Aleluia!
Crato 27 de janeiro de 2013

Secretariado do 13º Intereclesial das CEBs
Rua Teófilo Siqueira, 631 – Centro – CEP 63.100-010 – Crato CE
Fone/Fax (88) 3251-1110 – Email intereclesialcrato@yahoo.com.br
RegionalSul I da CNBB/S.Paulo
Edmundo - edmundo.cebs@gmail.com
Liz-  Lizceep@hotmail.com

sábado, 8 de setembro de 2012

"O futuro da Igreja está na mão do laicado"

O texto abaixo foi publicado no site da Adital. É uma entrevista com Dom Tomás Balduíno, bispo emérito da cidade de Goiás e conselheiro permanente da Comissão Pastoral da Terra (CPT). Nestes tempos em que a Igreja reflete sobre o Concílio Vaticano II, não pode deixar de ser lido por todo cristão, e especificamente católico, que tem atuação pastoral efetiva.


31.08.12 - Brasil
Entrevista - Dom Tomás Balduíno: O futuro da Igreja está na mão do laicado, não da hierarquia

Ermanno Allegri
Diretor da ADITAL
Adital
Bispo emérito da cidade de Goiás e conselheiro permanente da Comissão Pastoral da Terra (CPT), Dom Tomás Balduíno está em Fortaleza, Ceará, onde participa do Simpósio "50 Anos do Concílio Vaticano II e 40 Anos da Teologia da Libertação – O que o Espírito diz às Igrejas?”. O evento se encerra amanhã (1) e é realizado pelo Movimento Formação Cristã Libertadora.
Em entrevista a ADITAL, Dom Tomás fala sobre as mudanças na Igreja geradas pelo Concílio Vaticano II, enfatiza o importante papel dos leigos e leigas e contextualiza o cenário da América Latina.
ADITAL– O Concílio Vaticano II foi o momento em que a Sagrada Escritura foi o foco central, voltou a ser o interesse central da Igreja e começa, sobretudo, a chegar às mãos do povo, nas mãos dos cristãos, dos leigos. Isso causou alguma mudança dentro da Igreja?
Dom Tomás Balduíno- Causou muitas mudanças. Eu falo do caso da América Latina em que havia já uma busca de contato com a bíblia, com a palavra de Deus nas comunidades, sobretudo, considerada em situação de inferioridade com relação aos crentes que lidavam muito bem com a bíblia. Então, entre nós, tivemos a grande chance de Carlos Mesters, do grupo dele, do CEBI, da leitura popular da bíblia. Isso foi como o ovo de Colombo e difundiu muito a bíblia entre nós.
ADITAL- A Igreja Povo de Deus despontou também quase que, se não em contradição, mas como novo valor do Concílio. A Igreja do lado hierárquico não acompanhou essa mudança. Como o senhor vê essa questão, sobretudo, pensando no futuro com tantos teólogos quase que afastados?
Dom Tomás Balduíno- A questão do Povo de Deus tornou-se uma proposta pra dentro da Igreja, que mexeu na estrutura, por isso, teve mais reação por parte da Cúria, eles não esperavam aquele esquema que colocasse o Povo de Deus antes da consideração sobre a Igreja hierárquica. E isso, então, com o Sínodo de 85 já programado por João Paulo II foi a bancarrota, acabou, foi supresso. Quer dizer, teoricamente, ou então curialmente supresso. Na realidade é a nossa força, é a força da nossa pastoral na América Latina, é o Povo de Deus com todas as consequências de participação, de contribuição, de presença, de contradição.
Adital- Sobre a situação da América Latina, hoje nós podemos dizer que há sinais claros de iniciativas concretas que apontam não só para um futuro, mas que mostram uma continuidade. Vendo esse passado, pensando nesses sinais e olhando o futuro, como é que o senhor avalia essa vivência desses setores de Igreja?
Dom Tomás Balduíno- Antes de falar desses sinais, que são sinais luminosos, eu queria mostrar a estratégia, utilizada, sobretudo, pelo Papa João Paulo II de abranger toda a estrutura da Igreja. Ele pegou desde a formação do seminário até a nomeação dos bispos. Passando também pelo direito canônico e pela repressão da Teologia da Libertação. Pegou também o colegiado, uma vez que a nomeação de bispos era de acordo com o sistema romano, então, o colegiado foi desaparecendo e reaparecendo as províncias eclesiásticas. Isso foi uma estratégia que perdura como peso até hoje em toda a diocese, em toda a Igreja no mundo inteiro.
Há sinais claros, concretos de vida continuando com o Concílio Vaticano II, vivendo esse carisma na América Latina. Primeiro os frutos de Medelín, que são as organizações sociais camponesas, indígenas de mulheres que hoje existe. Vivemos as consequências queridas e planejadas por Medelín no sentido das comunidades, dos seus agentes sujeitos, autores e destinatários da sua própria caminhada.
Isso está acontecendo mais em uns países do que em outros. Considero, por exemplo, Equador e Bolívia países onde isso é muito flagrante. Depois, dentro da própria Igreja o fortalecimento das CEBs, os encontros de CEBs é um apelo, o pessoal vem, é um grupo minoritário, mas muito representativo e significativo em todo o Brasil.
Também as Pastorais Sociais como tem crescido, como tem se fortalecido agora em comunhão ou intercâmbio com as diversas organizações sociais populares. Depois os congressos, as organizações de lideranças de teologia, as jornadas mostram que a semente não foi destruída, a semente está produzindo frutos. É muito interessante, acho que se interliga no mundo inteiro com as diversas tentativas de romper essa estrutura monolítica da Igreja.
Adital- O que falta hoje para os leigos serem mais autônomos, tomarem as decisões? Esse Simpósio Teológico que estamos fazendo deveria ser multiplicado no sentido de dar aos leigos os meios pra se sentirem mais seguros nas suas posições e para tomarem mais iniciativas. O que falta para eles agirem?
Dom Tomás Balduíno- Há 20 anos ou mais que venho pensando e tentando passar adiante. Primeiro é que o futuro está na mão do laicado da Igreja, não da hierarquia. Bananeira que já deu cacho não presta mais. Tem sua função, mas a força da Igreja é o laicado. E o Concílio ascendeu um pouco timidamente sobre isso, mas o caminho para superar essas dependências, essas mil dependências da paróquia ou então do Bispo, uma linha de criar uma autonomia é a escola de teologia, a escola bíblica.
É verdade que nós temos pastorais autônomas, temos uma pastoral autônoma, que é a Comissão Pastoral da Terra, que eu considero uma estrutura leiga, tem Bispo na direção porque foi pedido pela CNBB, mas o que vale ali é a presença do laicado. E quando isso é formado, quando tem base teológica e sabe ver o futuro, isso não só serve de defesa para a pessoa ou grupo, mas serve também de caminhada, de serviço ao mundo, um serviço necessário que não é só a hierarquia ou os missionários que vão fazer, mas leigos até com mais eficácia, com fermento na massa.

Fonte: Adital

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Sua ação social atende as necessidades de sua comunidade?

O texto abaixo é uma reprodução do publicado no blog O ‘P’ da Letra, do nosso amigo José Luiz Possato Jr., assessor do Centro de Estudos Bíblicos do Rio Grande do Sul (CEBI-RS). De uma forma simples, tenho certeza que colocará uma pulga atrás da orelha de muito agente pastoral.


QUANDO O DISCURSO VAI PRO BURACO

O causo a seguir é uma adaptação de um dos esquetes do curso de Teatro e Bíblia, realizado no Rio Grande do Sul, voltado especialmente para o público juvenil, mas já adaptado, em diversas ocasiões, para outros grupos. Espero que gostem...------------------------------------

Estavam todas e todos a postos. O Presidente, Bíblia em punho, daria início à reunião. Não havia quem não admirasse o modo do Seu Zé interpretar as Escrituras. E ele dizia:

– Fazer justiça ao órfão, defender a causa da viúva, amados irmãos e irmãs, é socorrer os pobres, os marginalizados de hoje...

Várias cabeças balançando em sinal de aprovação. E ele prosseguia:

– Bem, pessoal! Hoje, retomamos o projeto social da nossa Igreja. Cumpre a nós continuar defendendo os órfãos e as viúvas do nosso tempo. Chamei vocês aqui porque tem trabalho pra todo mundo...

No meio da conversa, eis que entra D. Sílvia, a cara entre assustada e aflita. Todos percebem sua angústia. Alguém puxa uma cadeira:

– Sente-se, minha senhora! Quer um copo d’água?

– Não, obrigada! Eu só vim porque tenho um problema e me disseram que vocês poderiam ajudar.

Seu Zé olha pro céu, agradece a Javé, o Deus dos pobres, que enviou aquela mulher para confirmar que a Obra é de Seu agrado.

– Pois a senhora veio ao lugar certo. Como é o seu nome?

– Sílvia! Eu vim aqui porque tem um buraco na minha rua. Já falei com a prefeitura, com a agência de saneamento, as companhias de luz e telefone, e nada! Ninguém tá nem aí! E olhe que é ano eleitoral...

– Pois olhe... É até melhor assim. Ficar devendo favor pra político é um atraso de vida. Mas me diga, D. Sílvia, a senhora trabalha?

– Faço meus bicos...

– A senhora sabia que estamos iniciando um grupo de ação social aqui na Igreja? Desenvolvemos vários trabalhos muito legais que podem envolver toda a família. Hoje, por exemplo, faremos uma oficina de panificação.

– Hum...

– Como é a vida lá na sua rua? O pessoal é bem pobre, né!

– É, mas...

– Quantos filhos a senhora tem?

– Oito.

– Oito? Sabia que temos um trabalho específico para as crianças? Inclusive, nos dias de celebração, elas ficam com algumas gentis senhoras da comunidade que adoram contar historinhas bíblicas.

– Mas eles são grandinhos...

– Bom, então os mais velhos podem participar do grupo de jovens. Pelo menos, enquanto estão na Igreja, sabemos que não estão em más companhias, metidos em algum problema...

– Epa, peraí só um minutinho! Meus filhos não são muito de Igreja, vá lá... Mas nunca se envolveram com drogas ou coisa pior. Eles são trabalhadores, somos gente honesta...

– Calma, D. Sílvia, é modo de falar... É que esses jovens de hoje andam tão carentes de orientação...

– Não os meus filhos, isso eu lhes asseguro.

– Ok, ok, não precisa se zangar! Olha só... Que tal a senhora vir participar aqui com a gente. Temos um monte de outras coisas bacanas pra fazer. Às quartas é dia de entregar cestas básicas para as famílias carentes.

– Hum, tem um pessoal lá perto de casa que está mesmo precisando...

– Então, viu que legal! A senhora pode ajudá-los.

Seu Renato achou melhor reforçar o argumento do Seu Zé:

– E, certamente, a senhora vai se sentir bem por isso.

Seu Zé, que já havia falado sobre fazer o bem sem esperar recompensa, emenda:

– Claro, ajudar os outros sempre faz a gente se sentir melhor. Mas fazer o bem aos pobres é, antes de tudo, dever evangélico.

D. Sílvia, tentando assimilar tanta informação, limita-se a um aceno de cabeça, como quem está ponderando sobre o assunto. Sentindo a hesitação, Seu Zé faz outra proposta:

– E que tal o grupo das merendeiras? Elas fazem um sopão para reforçar o lanche que as crianças mais carentes ganham na escola. O que sobra, eu e alguns amigos aqui da comunidade distribuímos, junto com cobertas, para esquentar a noite dos moradores de rua.

– Olha, parece interessante... Mas vem cá! E o buraco lá da minha rua?

D. Olívia, que até aquele momento estava de espectadora, não se conteve:

– Ih, dona! Tando aqui com a gente, a senhora nem vai mais lembrar que o buraco existe.

D. Sílvia agradeceu e foi-se embora. Dizem que fundou uma associação de moradores do bairro. Continua brigando com a prefeitura por causa de outros buracos. O grupo de ação social? Vai muito bem! Hoje, a oficina é de tricô e crochê.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

CEBs - Aproximando a Igreja do Povo de Deus

Muita gente, principalmente as novas gerações, vive me perguntando o que são as Comunidades Eclesiais de Base, o que elas fazem, como são suas celebrações, como elas funcionam... Explico mdo meu jeito e poderia escrever aqui um texto explicando, mas é bom respeitarmos o que já está sistematizado e publicado, ainda mais sendo omautor do texto o renomado Frei Betto.

O texto abaixo, de autoria do Frei Betto, foi extraído do livro Militantes do Reino, Catecismo popular, que é parte da Coleção Fé e Libertação, publicado pela Ed. Ática. Esse é apenas o capítulo 7 do livro, que merece ser lido em sua íntegra, mesmo sendo um pouco antigo. Mas, antigo por antigo, a Bíblia nos mostra que “velhos” livros podem nos trazer grandes ensinamentos, não é mesmo?

Segue abaixo o texto. Contando as imagens, são apenas quatro páginas, mas o ensinamento é muito grande. Aproveite!
 

CEBs - Sementes da Igreja renovada
 

O fato

Ao início dos anos 60 surgiu entre as classes populares do Brasil um novo modo de a Igreja ser: as Comunidades Eclesiais de Base. As CEBs são grupos de 20 ou mais pessoas que se reúnem uma ou duas vezes ao mês na capela da roça, no sítio do pequeno agricultor, no salão da casa paroquial, no centro comunitário da vila, no barraco da favela, para refletir, nutrir e celebrar sua vida de fé.

São comunidades porque as pessoas se conhecem pelo nome, partilham suas vidas e seus problemas, põem em comum seus bens e seus esforços, lutam juntos por melhorias no bairro, conquista da terra ou da moradia, uma vida melhor. São edesiais porque o eixo em torno do qual giram é a Palavra de Deus, o uso da Bíblia dentro da realidade conflitiva em que vivem, a comunhão com a Igreja, da qual são células vivas. São de base porque integradas por subempregados, aposentados, jovens, lavradores, operários, donas de casa, enfim, gente pobre e oprimida que forma a base da sociedade.

Inúmeros líderes e dirigentes de movimentos populares, sindicais e políticos tiveram nas CEBs o início da sua atuação a serviço da conquista de uma nova sociedade brasileira, sem oprimidos e opressores.

O trabalho das CEBs identifica-se com a atuação pastoral de movimentos eclesiais como a PO (Pastoral Operária), a CPT (Comissão Pastoral da Terra), o Cimi (Conselho Indigenista Missionário) e tantos outros setores de pastoral especializada.


A Igreja que a gente quer

Como deve ser uma Igreja germe e ferramenta do Reino?

A Igreja católica no Brasil e na América Latina passa por uma profunda mudança. Mudança de qualidade, como a semente da laranja vira árvore, laranjeira. Laranja e laranjeira têm a mesma raiz. Mas são de qualidade diferente: semente é diferente da árvore que é diferente da fruta. Assim a Igreja vem plantando uma semente no chão da vida do povo. Semente fica debaixo do chão, a gente não vê. Pode até pisar em cima dela! Mas ela acaba germinando e produzindo frutos.

Que frutos esperamos das sementes lançadas pelas Comunidades Eclesiais de Base e por todos esses grupos pastorais identificados com a opção pêlos pobres?

Quem planta café não espera colher batata. Espera colher café. Assim, vejamos o que esperamos colher dessas sementes que nas cidades e no campo a gente simples do povo está plantando no chão da vida com a força da fé:

Uma Igreja povo de Deus

Uma Igreja que não seja só de padres e bispos. Seja também dos leigos. O engenheiro pode saber projetar a casa, mas é o trabalho dos pedreiros que põe a casa de pé. Cálculo de engenheiro não basta para fazer a casa, fica no papel. Família nenhuma mora em papel, mora é em casa de pedra, tijolo, madeira e telha. Quem faz a casa é o trabalho do pedreiro, do carpinteiro, do bombeiro, do eletricista etc. Mas casa sem cálculo e sem planta sai errada. Por isso o engenheiro é importante. Porém, sozinho ele não ergue a casa.

O mesmo acontece na Igreja: padres e bispos sozinhos não são a Igreja nem fazem a Igreja. A Igreja é o povo que tem fé em Deus e amor ao próximo. Dentro da Igreja cada um tem a sua função e serviço, como na construção da casa: um toma conta da capela, outro cede sua casa para a reunião da comunidade, outro anima o grupo de jovens, outro organiza as festas, uma equipe visita os doentes, outra promove os cursos bíblicos, outra ensina o catecismo às crianças etc. O padre é como o engenheiro: anima a comunidade, ajuda na orientação. Mas qualquer obra pode ser tocada sem que o engenheiro fique lá o dia todo. Os operários sabem fazer as coisas. Na Igreja também todos devem saber fazer as coisas, pois todos são responsáveis: leigos, religiosas, padres e bispos. Ninguém é melhor do que o outro, pois todos têm a mesma importância. O dono da casa é Jesus Cristo. Cada um de nós é um tijolo da casa.

Uma Igreja popular

Igreja feita de povo e não apenas de gente que tem dinheiro e prestígio. Jesus e os apstolos eram pobres e conviviam com os pobres. A Igreja também deve ser simples e nela os pobres devem ocupar os primeiros lugares. Como Jesus deu preferência aos oprimidos, a nossa Igreja deve dar preferência à gente trabalhadora, ao operário, ao desempregado, ao jovem que estuda e trabalha, ao aposentado, ao agricultor, ao sem-terra, ao bóia-fria. Na sociedade capitalista o pobre serve ao rico. Na Igreja o rico deve servir ao pobre (Mc 10, 17-22).

Uma Igreja comunidade
Massa é diferente de comunidade. Quando o templo está cheio de gente assistindo à missa, pode ser que aquelas pessoas nada tenham de comum entre si: isso é massa. Na massa as pessoas estão umas ao lado das outras. Na comunidade as pessoas estão umas em frente das outras, se conhecem pelo rosto e pelo nome. Há algo de comum entre elas. Por isso devemos dinamizar a formação de CEBs. Onde se reúne um grupo de cristãos da mesma escola, rua, bairro, local de trabalho ou área rural, aí existe uma CEB, uma comunidade de Igreja.

Uma Igreja cristocêntrica

Eta palavra complicada! Mas significa coisa bem simples: Igreja onde o Cristo esteja no centro. Tem muita igreja por aí onde o centro é ocupado pelo dinheiro que os fiéis podem pagar pelos serviços litúrgicos. Ou no centro estão a Nossa Senhora Aparecida, o Papa ou o São Benedito. Tudo isso tem o seu valor, menos negar serviços litúrgicos ao pobre que não tem como pagá-los. Como também não faz sentido enfeitar a igreja luxuosamente para o casamento do rico e exigir dos trabalhadores terno e gravata e vestido de noiva! Não devemos trocar o motor pelos acessórios. Carro depende é do motor. Na Igreja o motor é Jesus Cristo e o destino, o Reino. Ele está vivo entre nós e confia em cada um de nós.

Vamos fazer em grupos

Uma representação teatral, improvisada, mostrando:

1. Como era a Igreja de antigamente.
2. Como vemos a Igreja hoje.
3. Como queremos que a Igreja seja.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Tecelãs do Amor realizam seu 4º Encontro Anual

Tecelãs de vários pontos da cidade de São Paulo e, inclusive, de outras cidades e estados marcaram presença no 4º Encontro Anual das Tecelãs do Amor. “Muitas tecelãs doam seu tempo e as peças que produzem, mas não têm contato entre si. Promover o encontro é importante para que elas possam se conhecer, se confraternizar, trocar receitas e ver a dimensão do trabalho para o qual ela contribui”, diz a coordenadora do projeto, Marlene Vilutis. O encontro foi realizado na véspera do Dia das Mães (12 de maio), na Comunidade Cristo Rei.
As Tecelãs do Amor produzem vestuários de tricô, crochê e patchwork que são doados para crianças que nascem no Amparo Maternal, a maior maternidade de assistência pública do país. “Muitas das mães não têm nada. Chegam para o parto apenas com a roupa do corpo. Agradecemos muito às Tecelãs do Amor. É um trabalho voluntário e de doação realizado com muito carinho. As peças que elas produzem ajudam a dar paz e conforto para as mães e as crianças”, afirmou Edna Bispo dos Santos, religiosa da congregação Irmãs de Santa Catarina, responsável pela gestão do Amparo Maternal.
“É comum o enxovalzinho que doamos ser a única roupa que as crianças têm para se proteger do frio. Dias atrás cheguei no Amparo para fazer as doações e encontrei uma criança que estava chorando de frio. O pezinho estava até roxo. Bastou a agasalharmos para que ela parasse de chorar”, afirmou Marlene.

A messe é grande...
As dependências da Comunidade Cristo Rei estavam repletas de mantas, casaquinhos, toucas, luvas e sapatinhos. Para onde quer que se olhasse lá estavam as peças produzidas pelas Tecelãs do Amor. Mas, apesar da grande quantidade, o trabalho das Tecelãs não consegue atender a demanda. “São realizados cerca de 25 partos por dia no Amparo Maternal. Nossa produção é suficiente apenas para um dia. Infelizmente, as crianças que nascem nos outros dias não podem contar com as peças que doamos”, lamenta Marlene.
Ela diz que necessita de doações de lã, mas também de mais voluntárias para realizar o serviço. “Depois que participamos do programa da Amanda Françoso, na Record News, muita gente nos procurou para realizar doações. Isso é muito bom. Mas, estamos divulgando nosso trabalho em outras comunidades e outras paróquias e até mesmo para outras confissões religiosas para conseguir a adesão de mais tecelãs”, diz. Tecelãs da Igreja Metodista também estavam presentes no encontro.

Integração social
Apresentação do coral Desvendar da Voz
“Participamos do projeto faz dois meses. Somos um grupo de 16 tecelãs que se junta para trabalhar. Fazemos tudo com muita alegria. Além de unir os pontos das mantas o projeto está unindo as pessoas. Está promovendo a integração de pessoas idosas que estavam esquecidas. Elas se juntam, passam o tempo, conversam, se alegram e contribuem com gratuidade e muito amor. O retorno está sendo muito grande também para nós”, disse Margarida Duarte, do grupo de Tecelãs da paróquia Nossa Senhora Aparecida, da Vila Arapuá.

Mais informações
Para obter mais informações, aderir ao projeto ou realizar doações, os interessados devem acessar o blog das Tecelãs do Amor (http://tecelasdoamor.wordpress.com/) ou ligar para o telefone (11) 2577-3328, falar com Marlene Vilutis.

Veja mais fotos do encontro.