(Reflexão para o Terceiro Domingo do
Tempo Comum – 22/01/2017 – Mt 4,12-23)
Padre Adroaldo (sj)
“Eles,
imediatamente deixaram as redes e o seguiram” (Mt 4,20)
Mudanças são a essência e o sabor da vida. O
ser humano é um ser de mudança; só é humano quem vive em “estado de mudança”.
A mudança é o elemento que
traz energia, variedade, surpresa, cor e vida à vida. Trata-se de um “hábito
do coração”: descobrir, examinar, purificar e substituir os hábitos
inertes, os esquemas mentais fechados, as condutas petrificadas, os projetos
sem horizontes...
É
saudável questionar-se, abrir-se e aventurar-se a ver as coisas de maneira
diferente e a responder às circunstâncias com espontaneidade nova.
Deus
não nos deu um espírito de timidez, de medo, de fuga, de acomodação... mas de
audácia, de criatividade, de luta, de participação... Movidos por sua força,
vemos a possibilidade de questionar toda nossa atitude conformista, sacudir
nossas convicções, ampliar nossos horizontes e animar nossa vida.
Toda
mudança implica sair de nós mesmos,
de nosso estreito mundo, de nossas práticas arcaicas, daquilo que nos protege e
nos esteriliza para que possamos avançar em direção às novas fronteiras do
espaço sem limites, que nos espera aberto e acolhedor.
Ser
seguidor de Jesus, portanto, consiste em colocar-nos nos seus “passos”,
com suficiente visão da realidade para ir adiante, e com bastante
disponibilidade para mudar de caminho quando o sopro do Espírito assim nos
sugerir.
O
texto do Evangelho do Terceiro Domingo do Tempo Comum (22/01) nos situa diante
de um denominador comum que é a mudança.
O próprio Jesus vive um momento de mudança radical: rompe com sua família, com
seu ambiente, afasta-se da estrutura religiosa centrada na Lei e no Templo e
opta por deslocar-se para a margem social e religiosa de seu tempo (Galiléia e terra
de Zabulon). Sua mudança de vida desencadeia um processo de mudanças nas
pessoas, de maneira especial no grupo dos primeiros seguidores.
O
olhar e o chamado de Jesus ativam
um movimento na vida dos primeiros discípulos: deixam seu estreito mar e seu
rotineiro trabalho para fazer caminho com o Mestre.
Tudo começou às margens do mar da Galiléia...
Jesus
caminha e, ao passar ao longo do mar, viu
aqueles homens que estavam retornando da pesca e entra no espaço vital deles. Exatamente ali, naquela vida tão normal,
acontece algo novo.
Jesus os
chama do mar, os faz descer da barca e os convida a segui-Lo, para
mergulhá-los no Seu mar, para
fazê-los subir noutra barca, para
atraí-los a uma vida diferente.
O seguimento só se realiza quando alguém
se deixa conduzir para águas profundas num novo
mar.
Partindo do
lugar e das coisas que representam as esperanças, as dificuldades, as
decepções, os sucessos, as derrotas daqueles homens pescadores, Jesus pronuncia
sua Palavra mobilizadora: “Segui-me e farei de vós pescadores de
homens”, ou seja, compartilhar Sua mesma missão, “pescar” o que há de mais
humano e nobre nas pessoas, ajudá-las a viver com sentido, tirando-as do mar da
desumanização.
E
Jesus tem a capacidade de extrair o maior bem possível do outro, de garimpar a
autêntica qualidade humana de cada um, sem necessidade de dar-lhe lições ou
arrastá-lo com argumentos racionais.
“Eles deixaram as redes e o seguiram”: seguir
Jesus é uma libertação. Na realidade, o que eles deixam não são apenas redes,
mas tudo aquilo que aprisiona, enreda e que impede a vida ter uma dimensão
maior.
Tocados pelo dinamismo de Sua voz e de sua Palavra, os
pescadores se dão conta d’Aquele que estava passando: eles já tinham sido
vistos, conhecidos, amados, escolhidos.
Aquela Palavra
que vibra forte, abre os olhos, a mente e o coração daqueles homens rudes do
lago. Sentem-se chamados pelo nome, conseguem compreender melhor a si mesmos e
redescobrem um sentido novo, um significado inimaginável para a própria
existência. Eles descobrem o quão estreito era o seu mar cotidiano e entram no
dinamismo da vida de Jesus, deslocando-se para o vasto oceano do Reino.
A
experiência do encontro com a pessoa de Jesus, seu olhar compassivo e terno, a
proposta ousada e desafiante que Ele nos faz... despertam dinamismos profundos
e desejos nobres em nosso interior, sacodem nossa rotina e ampliam nosso
atrofiado olhar.
Ao “fixar
seu olhar” em cada um de nós, chamando-nos pelo nome, seremos movidos a assumir
opções mais radicais e integrais pelo Reino, segundo o modo de ser, de viver e
de fazer do próprio Jesus.
São
grandes os riscos de se viver em horizontes tão estreitos. Tal estreiteza
aprisiona a solidariedade e dá margem à indiferença, à insensibilidade social,
à falta de compromisso com as mudanças que se fazem urgentes. O próprio lugar
se torna uma couraça e o sentido do serviço some do horizonte inspirador de tudo
aquilo que se faz. Ampliar os espaços do coração implica agilidade,
flexibilidade, criatividade, solidariedade e abertura às mudanças e às novas
descobertas.
Vivemos
um tempo caracterizado por constantes mudanças e pelo movimento. No entanto, de
uma maneira dissimulada, percebemos a presença de uma paralisia que perpassa
nossa condição humana. E paralisia é o que ocorre quando algo que deveria
mover-se e fluir, não se move, nem flui. Esse “algo” são processos, projetos,
relações, aspirações, causas... E é essa mudança verdadeira que, quando não
ocorre, nos faz sentir estancados, angustiados e sem brilho, embora
aparentemente as coisas pareçam andar bem.
Uma pergunta que normalmente costuma
protagonizar nossas conversações com amigos e parentes é: “por quê você vai mudar?” Aumenta
a curiosidade quando alguém que gosta muito do que está fazendo, sobretudo no
campo profissional, decide mudar: “é
verdade que você vai deixar? A gente
percebia você tão feliz!”
Acontece que, às vezes, não há nada
“mau” com o que estamos fazendo, mas sem entender muito bem por que, há algo
dentro de nós que nos impulsiona a sair, a ir além de nós mesmos, a levantar
novo voo.
Alguém poderia nos perguntar: “Mas, se estava bem, para que complicar-se
ao começar algo novo?”.
A resposta que damos nunca poderá ser
totalmente racional.
Porque
disso se trata: toda mudança nos
leva a desatar nossa essência, isso que somos na verdade e que clama por sair.
O
certo é que avançar supõe fazer opções, renunciar à comodidade do conhecido e
dar lugar à mudança. Mas mudar nos dá medo e o medo, às vezes, paralisa. Temos
medo de nossas próprias capacidades; tememos nossas máximas possibilidades;
assusta-nos chegar a ser aquilo que vislumbramos em nossos melhores momentos.
No entanto, não podemos ser “bonsais” de nós mesmos, atrofiando nossos recursos
internos e tirando o brilho de nossa vida.
Desprender-nos
do antigo e dar lugar ao novo implica um processo sempre enriquecedor, mas
também doloroso. Muitas vezes, para escapar do sofrimento, preferimos evitar os
riscos em vez de assumir o fato de que, para dar à luz algo novo,
necessariamente devemos tomar a decisão de soltar o que nos mantém ancorados no
nosso estreito mar e não nos permite singrar (navegar) os vastos oceanos.
Texto bíblico:
Mt 4,12-23
Na oração: No fundo do
seu coração cheio de velhas barcas, redes inúteis, mar estreito... é aí que o
Senhor passa... e com sua Palavra
provocante o acorda para uma ousadia maior. Compete a você dar-lhe acolhida.
- Seguir o Desconhecido
do lago significa aceitar a vida
como sacramento do encontro, onde ressoa a Palavra
d’Aquele que passa, vê, conhece, ama, chama pelo nome... Aos poucos você
vai intuindo que a vida não é
questão de certezas, mas de busca e de desejos, de caminhar com
Aquele que o chama para ficar com Ele e com Ele constituir a grande comunidade
de servidores.

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