"Vos sois todos irmãos" (Mt23,8)
Trecho da “Apresentação” do
texto-base da Campanha.
Jejum: esvaziamento, expropriação, libertação. Tudo para que sejamos um só em Cristo (Gl3,28) e Cristo seja formado em nós (Gl4,19). O jejum abre nossa pessoa, para a receptividade, para a liberdade da vida em Cristo.
Esmola: vida, fé partilhada. A esmola nasce da alegria de ter encontrado o tesouro escondido, a pérola preciosa (Mt13,44-46). O amor, a misericórdia busca o outro. Tem necessidade de partilha e nos aproxima da irmandade.
Oração: tocados pelo dom do anúncio, apercebidos da valiosa experiência do cuidado amoroso e misericordioso de Deus em Jesus Cristo, necessitamos de palavras e silêncio para agradecer e suplicai. Uma espécie de exposição ao dom recebido, na tentativa ser atingidos com maior intensidade pelo amor e pela misericórdia.
Todos os anos, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) apresenta a Campanha da Fraternidade como caminho de conversão quaresmal. Um caminho pessoal, comunitário e social que visibilize a salvação paterna de Deus.
"Fraternidade e superação da violência" é o tema da Campanha para a Quaresma, em 2018. O Evangelho de Mateus inspira o lema: "Vós sois todos irmãos" (Mt23,8). A Campanha tem como objetivo geral: "Construir a fraternidade, promovendo a cultura da paz, da reconciliação e da justiça, à luz da Palavra de Deus, como caminho de superação da violência".
Sofremos e estamos quase estarrecidos com a violência. Não apenas com as mortes que aumentam, mas também por ela perpassar quase todos os âmbitos da nossa sociedade. A ética que norteava as relações sociais está esquecida. Hoje, temos corrupção, morte e agressividade nos gestos e nas palavras. Assim, quase aumenta a crença em nossa incapacidade de vivermos como irmãos.
"Por 'violência cultural' entendem-se as condições em razão das quais uma determinada sociedade reconhece como violência atos ou situações em que determinadas pessoas são agredidas. Criam-se processos que fazem aparecer como legítimas certas ações violentas. Elaboram-se discursos para apresentar razões e justificativas como se uma ação violenta fosse devida, uma consequência de determinadas condutas da própria pessoa que sofreu a violência.
Portanto, a violência cultural não é, necessariamente, uma causa da violência direta, mas cria as condições em meio às quais chega a tornar-se difícil, para a sociedade, reconhecer um sistema como violento”.[1]
Se partirmos do texto sagrado que indica o caminho das origens de todo o universo, ficamos admirados coma harmonia das relações: "E Deus viu que tudo era bom" (Gn1,25). A origem do homem e da mulher é ainda mais admirável: "Façamos o ser humano à nossa imagem e semelhança (...). Deus criou o ser humano à sua imagem, à imagem de Deus o criou. Homem e mulher ele os criou" (Gn1,26-27). Confiou ao homem e, à mulher o cuidado e o cultivo da obra criada. E, assim, nos diz o texto que "Deus viu tudo quanto havia feito, e era muito bom" (Gn1,31).
Há, no desabrochar e no cintilar de tudo, uma relação de amor e de cuidado. Na origem da bondade de Deus, está o sentido da obra criada e o sentido de ser pessoa. Jesus mesmo, ao ser confrontado com a separação entre o homem e a mulher, dirá: "Moisés permitiu despedir a mulher, por causa da dureza do vosso coração. Mas não foi assim desde o princípio" (Mt19,8). No princípio, no eclodir, no dar-se, no manifestar-se, não existe divisão, desamor, violência, mas acolhimento, reverência, pertença fraterna. A violência vem depois. Nasce do esquecimento das origens, da vocação do ser humano: o amor. O esquecimento do mandamento do amor e da ética gesta e desperta violência. Os descaminhos, no entanto, podem ser superados com a volta às origens, com a reconciliação e a misericórdia. Somos chamados à superação da violência, pois somos filhos e filhas de Deus.
A Campanha da Fraternidade acontece no Ano Nacional do Laicato, que tem como tema: "Cristãos leigos e leigas, sujeitos na 'Igreja em saída’ a serviço do Reino” e como lema: "Sal da terra e luz do mundo (Mt5,13-14). Uma Igreja que anuncia o Reino de Deus, o Reino da paz e da fraternidade. Os leigos e leigas, iluminados e fortificados pela Palavra e pela Eucaristia, serão luz para superar a violência e sal para temperar a fraternidade.
Maria, Mãe do Príncipe da Paz, nos acompanhe no caminho de conversão quaresmal! Jesus Cristo crucificado-ressuscitado, que transformou todas as coisas, nos ajude no caminho da superação da violência, pois somos todos irmãos.

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