sábado, 8 de setembro de 2012

Um tal Jesus – Capítulo 13: No bairro dos pescadores

Com essa novelinha sobre o contexto histórico e a trajetória de Jesus, será que ainda tem gente que quer saber de “Carminha X Nina”? Aqui neste blog, posto um capítulo a cada semana, mas, quem quiser, pode ler mais rapidamente. Basta acessar o site do IPJ (Instituto Paulista de Juventude). Mas, vamos ao que interessa... hehehe...
Neste 13º episódio, Jesus chega a Cafarnaum, cidade de pescadores na qual moravam a maioria de seus futuros apóstolos. Com seu jeito calmo e simples de falar e tratar as pessoas, conquista a todos com suas histórias. Se delicie com mais esse capítulo.

No bairro dos pescadores

O grande lago da Galiléia estava rodeado de planícies e colinas semeadas de pomares e de trigo, de vinhedos e de hortas. Em suas margens apinhavam-se muitas vilas de pescadores. Tiberíades, a cidade maldita, onde o rei Herodes tinha seu palácio. Magdala, famosa por suas mulheres. Betsáida, que significa “a casa dos pescados” onde todos nós havíamos nascido. E a mais buliçosa, Cafarnaum, “a cidade do consolo”, onde agora vivíamos e trabalhávamos sob as ordens de meu pai, Zebedeu.

Zebedeu: Por hoje já está bom, caramba! E muito mais do que mais que bom! Tiago, diga à sua mãe que separe os dourados maiores para a sopa... Já fazia tempo que não tínhamos uma pescaria tão boa. E pelas tripas da baleia do profeta Jonas, a gente tem de celebrar isso!
Tiago: Você me deixará provar essa sopa, não é, velho?
Zebedeu: Sim, homem, venha com a sua mulher. E diga àquele velhaco do Pedro que apareça também. Se pescamos juntos, juntos vamos comer, sim senhor!

Meu pai, o velho Zebedeu, aprendeu a remar antes de caminhar. Passou toda sua vida pescando no lago da Galiléia. Conhecia aquelas águas melhor que a palma de sua mão. Às vezes penso que meu velho tinha escamas na pele e espinhas em vez de ossos... Com Jonas, o pai de Pedro e André, e outros dois pescadores, havia formado uma cooperativa. Zebedeu era o chefe. Tínhamos em comum os barcos e as redes. Todos trabalhávamos juntos e, ao final de cada jornada, repartíamos os lucros, que não eram muitos.

Zebedeu: Chegará o dia, e esses olhos hão de ver, em que haverá sopa de peixe para todos e trabalho para todos e justiça para todos os pobres! Eia, vamos para casa, João, que já estou com mais fome do que Adão debaixo do pé de maçã!

Quando o sol se escondia atrás do monte Carmelo, o lago ficava em silêncio. As gaivotas, que durante todo o dia revoavam sobre a água, voltavam a seus ninhos. As barcaças se apertavam com suas velas já dobradas no embarcadouro de Cafarnaum, esperando a nova manhã de trabalho. E em todas as casas dos pescadores, amontoadas junto à margem, começavam-se a acender os fogões...

Zebedeu: Como vai esta sopa, mulher?
Salomé: Não vai demorar nada, velho, não seja impaciente!
Zebedeu: Não se esqueça de jogar dentro algum ouriço! Isso é que dá o sabor!
Salomé: Deixe-me em paz. Eu não me meto com seus barcos, você não se mete com minhas panelas...

Minha mãe, Salomé, era uma mulher baixinha e magra. Forte como a raiz de uma árvore e tostada pelo sol. Já estava velha, mas ainda não tinha um só cabelo branco. Essa era sua única vaidade. Gostava do trabalho da casa tanto quanto de ir bater papo com as vizinhas. Sabia fazer tudo muito depressa para poder estar em todas as partes. Ela sempre me lembrou esses peixes voadores que às vezes brincam no lago: rápidos como uma faísca. E espertos. Nunca conseguimos agarrá-los.

Zebedeu: Escute, André, e seu irmão Pedro, que aconteceu? Não vem hoje por aqui?
André: Ele virá mais tarde. Esse não perde um guisado da Salomé por nada nesse mundo! Acontece que a sogra dele continua doente e Rufina foi buscar umas ervas lá no Jairo. E Pedro ficou com as crianças... Virá logo...

Enquanto minha mãe cozinhava, o cheiro do pescado ia tomando conta da casa. André, Tiago e eu jogávamos dados...

Tiago: E lá vão cinco!... Sua vez, André...
André: Quatro e dois!
Tiago: Você, João...
João: Continuo no sete.
Tiago: Ganhei outra vez! Vamos lá, João, pode pagar, que você já me deve duas vezes. E você também, André.
André: Poxa, que cara mais sortudo! Não me resta mais nada, nem um centavo. Estou pelado.
João: Tiago, eu acho que você fez alguma trapaça...
Tiago: Trapaceiro, eu? Vai pro inferno, eu joguei limpo!
João: Cabelo de fogo, você trapaceou...
André: Deixa pra lá, João, ele sempre faz isso...
Tiago: O que é que você está dizendo, ô magricela?! Eu joguei limpo! Tá escutando, tá escutando?
Zebedeu: Vamos lá, rapaziada, não gastem os punhos brigando entre vocês, guardem para os romanos... Falando nisso, já faz tempo que ninguém do Movimento aparece por aqui. Isso está muito esquisito. É muita tranquilidade.
João: Desde que agarraram João, o batizador, as pessoas têm medo. Ninguém mostra as unhas.
André: Os zelotas estão esperando pra ver o que vão fazer com ele...
Tiago: O que vão fazer com ele, o que vão fazer com ele!... Temos de ver o que nós vamos fazer! Se isso continua assim e ninguém se mexe, vamos nos mexer nós mesmos sem esperar ordens, que diabos! Não vamos ficar aqui pensando na morte da bezerra!...
Zebedeu: E o que vocês poderiam fazer, moleques!
João: Nada, agora há romanos por todo canto. A Galiléia inteira está tomada. E no quartel há mais soldados que nunca...
Tiago: Pois isso é melhor, então... Se há tantos passarinhos soltos algum cairá na rede. Por que não aproveitamos para dar um bom susto neles?
André: Pedro também falava disso, outro dia, mas...
Tiago: Mas o quê, magricela, você está sempre colocando mas...
André: Tiago, agora é o melhor tempo para pescar no lago. Se fizermos alguma coisa teríamos de nos esconder depois. Ou você não se lembra mais de como foi aquela confusão da Páscoa? E então, como fica o trabalho?
João: O magricela tem razão... Nós, mortos de fome, sempre temos de pensar no estômago antes de mais nada.

Jesus chegou a Cafarnaum quando a noite já havia se fechado sobre o lago. Atravessou o bairro dos artesãos e caminhou até o embarcadouro. De todas as casas saía um cheiro penetrante de comida recém cozida que se misturava nas ruas com o fedor de peixe podre. Aquela era a hora mais viva e ruidosa de Cafarnaum... Depois de perguntar aqui e ali, encontrou nossa casa...

Jesus: Posso entrar?...
Zebedeu: Entre, amigo, quem é?
João: Jesus! O que você faz por aqui, rapaz?
Jesus: Pois é, vim fazer uma visita...
Tiago: O moreno de Nazaré em Cafarnaum!
Jesus: Tiago, que alegria ver você... André, seu magricela!
Zebedeu: Bem, vejo que vocês já se conhecem muito bem...
João: Olhe, desde aquela manhã em que você foi para o deserto, não ficamos sabendo mais nada de você! Pensamos até que os escorpiões haviam comido você!
Tiago: Quando você soube do João? Precisamos fazer alguma coisa, Jesus!
André: Agora mesmo estávamos falando sobre isso...
Zebedeu: Maldição! Mas quem é esse homem? De repente aparece um sujeito, se abanca na minha casa e eu aqui feito um idiota...
Tiago: Não fique assim, velho, é um amigo que conhecemos lá pelas bandas do Jordão.
André: É de Nazaré. Chama-se Jesus...
Zebedeu: De Nazaré? Porcaria de lugar... Então, um camponês que veio conhecer o mar...?
Jesus: Seus filhos me convidaram para aparecer por aqui. Disseram que em Cafarnaum há muito trabalho. Em Nazaré as coisas andam difíceis.
João: Jesus, este é Zebedeu, nosso pai. Conte os pelos que ele tem na barba e saberá em quantas embrulhadas ele já se meteu. Aí está: um velho revolucionário, com cicatrizes e tudo...
Salomé: E aqui está a mãe desse par de sem-vergonhas!
Tiago: Esta é Salomé, nossa mãe.
Salomé: Seja bem-vindo, rapaz. Chegou na hora de tomar conosco uma boa sopa de pescado...  Está cansado, não? Venha, venha, sente-se aqui...

Pouco depois, chegou Pedro, mais alvoroçado que todos juntos. Estava feliz por voltar a ver Jesus. Com ele veio Rufina, sua mulher, e Simãozinho, um dos quatro filhos. Queriam cumprimentar aquele que havia chegado de Nazaré... Minha mãe teve de jogar mais água na sopa para poder chegar a todos...

João: Lembra daquela tarde em que o magricela e eu estivemos conversando com você?... Vamos lá, Jesus, conta pra eles aquela piada da pulga, é muito boa!...
Tiago: Nada de piadas agora, João. Você parece bobo. Não estávamos falando de fazer alguma coisa...? Pois então, vamos discutir isso com Jesus também!...
Pedro: Eu digo o mesmo que Tiago. E que viva o Movimento!
Rufina: Pedro, eu lhe peço pelo Deus Altíssimo, não se meta mais em nenhuma baderna! Minha mãe está morrendo... Não me jogue outro castigo por cima!... Que homem mais louco este, santo Deus!
Pedro: Ora, Rufi, também não é assim!...
Tiago: E aí, Jesus, o que há por Nazaré? Judas, de Kariot, esteve por lá faz pouco tempo e nos contou que...
Simãozinho: Escute, você sabia que eu vou ter uma irmãzinha?
Tiago: Parece que todo o vale está muito vigiado.
Jesus: Sim, é por causa de João. Em Caná também vi muitos soldados.
Simãozinho: Escute, você sabia que eu vou ter uma irmãzinha?
Tiago: Ai, cale a boca, ranhento, você já está estorvando? Não vê que isso é conversa de gente grande?
Rufina: Simãozinho, venha cá, não atrapalhe...
Simãozinho: É que eu vou ganhar uma irmãzinha!
Jesus: Ah, é? E como você sabe que vai ser uma irmãzinha e não um irmãozinho, hein?... Como foi que adivinhou?
Simãozinho: É que eu adivinho tudo!
Rufina: Cale a boca, menino e venha cá...
Jesus: Ahá! Quer dizer que você advinha tudo, não é? Pois então escute, adivinhe isto: O que é que cai em pé e corre deitado?
Simãozinho: Cai em pé e....
João: Isso é uma charada?
Zebedeu: Cale a boca, João... Mas, o que foi que você disse...? Como é que alguma coisa pode correr deitada?!...
Jesus: Sim, senhor, e corre ligeira em qualquer terreno...
Pedro: Mas que bicho esquisito é esse, Jesus...? Qual é? Diga.
Jesus: A chuva, caramba, a chuva!
Jesus: Vamos ver essa outra: “todos o compram pra comer e ninguém come”
André: ... pra comer e ninguém come...
Jesus: O prato!
Todos: É mesmo!
João: Isto está ficando bom!
Zebedeu: Calem a boca, e deixem-me ouvir, a próxima eu acerto!... Mande outra!
Jesus: Escute bem: “um matrimônio muito unido, quando sai a mulher, fica o marido”.
Salomé: Isto sou eu e o Zebedeu!
Zebedeu: Feche o bico, tonta... deixe-me pensar... Como é mesmo?... um matrimônio muito unido... sai a mulher e fica o marido... puf, desisto!
Jesus: A chave, homem, a chave e o cadeado!
Todos: Mais uma! Mais uma!
Simãozinho: Ei, você sabe muitas charadas?
João: Esse moreno emenda uma história na outra... Vamos lá, Jesus conte uma bem comprida, aquela dos camelos, lembra?... Psst! fiquem quietos pra ouvir...
Jesus: Pois vejam vocês... Aconteceu que um homem tinha três camelos. Um dos camelos foi ao poço para beber. E quando chegou ao poço...

Jesus começou a contar-nos histórias. Uma atrás da outra. A sopa havia se acabado e todos estávamos com sono, mas continuávamos escutando. Que boa língua ele tinha para falar as coisas... Todos o entendiam, desde a avó Rufa até o ranhento Mingo... Depois, quando começou a falar do Reino de Deus, continuou fazendo o mesmo, contando histórias e parábolas... Todos o entenderam em Cafarnaum e Jerusalém. Agora suas palavras correm de boca em boca e nós as proclamamos nas ruas e nas praças, certos de que o que começou num bairro de pescadores é boa notícia para todos os homens em qualquer lugar da terra.

Comentários:
O lago da Galiléia, por sua grande extensão, é chamado “mar” da Galiléia. No Evangelho é também mencionado como lago de Tiberíades ou de Genesaré, fazendo referência a duas das cidades que se encontravam em suas margens. No Antigo Testamento lhe dão o nome de mar ou lago de “Kinneret” (de “kinnor” que, em hebraico, significa harpa). A lenda diz que o lago tem esta forma e que a suave voz de suas ondas lembra o som das cordas da harpa. De norte a sul, o lago mede 21 Km. Sua maior largura é de 13 Km. Está situado, como o Mar Morto, abaixo do nível do mar (212 metros) e chega a ter uma profundidade de 48 metros. Suas águas são doces e ricas em várias espécies de peixes. São conhecidas até 24 espécies diferentes. Nos tempos de Jesus, e ainda hoje, a pesca é a principal atividade nas cidades das margens.
Junto ao lago foram sendo construídas várias cidades. Nos tempos de Jesus, uma das mais importantes era Cafarnaum (“cidade do consolo”, ou “cidade de Nahum”), nunca mencionada no Antigo Testamento. A cidade tinha um posto de alfândega, pois era fronteiriça entre a Galiléia governada por Herodes, e a zona da Ituréia e Traconítides que correspondiam a Felipe. Além disso, estava próxima a uma grande estrada romana que unia a Galiléia com a Síria (a chamada “via maris”). Por sua importância estratégica, havia também na cidade uma guarnição romana com um centurião no seu comando. Em Cafarnaum aconteceu grande número de episódios da pregação de Jesus na Galiléia. Ali viveu ao deixar Nazaré e Mateus chega a chamá-la “a cidade de Jesus” (Mt 9,1).
Nos tempos evangélicos, Cafarnaum era uma cidade de uns três quilômetros de extensão e uns poucos mil habitantes. Além da pesca, a população se dedicava à agricultura: azeitonas, trigo e outros grãos. As casas eram construídas de pedras negras de basalto, com tetos de barro e palha, que tornavam mais suportável o calor, muito forte no verão, por causa da grande depressão que forma o mar da Galiléia. Uns quatro séculos depois de Jesus, Cafarnaum foi destruída e somente no final do século XIX suas ruínas foram descobertas. Essas ruínas - alicerces de algumas casas, traçados de bairros e ruas da antiga cidade - são um dos maiores tesouros arqueológicos dos tempos evangélicos. Na Cafarnaum atual se conservam uma grande sinagoga, construída sobre a primitiva, e muitos objetos da época (lâmpadas de azeite, prensas, pedras de moinho etc.). De todas as lembranças, a mais importante, sem dúvida, são os alicerces da casa de Pedro. As inscrições encontradas demonstram que os primeiros cristãos se reuniam ali desde o século I para celebrar a eucaristia. Está muito próxima do embarcadouro e faz parte, junto com outras pequenas casas, de uma espécie de pátio comum ou solar de vizinhos, compartilhado por várias famílias agrupadas, quase porta com porta. O traçado dessas casinhas mostra com toda a clareza a extrema pobreza em que viviam os amigos de Jesus. É provável que Zebedeu, com sua mulher, Salomé, e seus filhos, Tiago e João, e a família de Pedro e André, viveram juntos em um desses agrupamentos de casas, no bairro dos pescadores de Cafarnaum.
Em todas as culturas camponesas ocorre a tradição oral: os vizinhos reunidos para escutar um de seus patrícios contar uma história mil vezes repetida e enfeitada; o pai que transmite a seus filhos o saber acumulado durante gerações, valendo-se de contos ou charadas; o avô ou avó especialistas em relatos... Jesus, camponês, foi herdeiro desta cultura. Por outro lado, o Oriente sempre foi berço fértil de histórias com moral, fábulas, parábolas etc. A tudo isso, Jesus uniria - e os evangelhos são uma prova - uma maestria pessoal de conversador e narrador. De seu mundo familiar e camponês nascem praticamente todas as suas parábolas. Explicava-se muito melhor com imagens do que com ideias abstratas. E é um erro acreditar que fazia isso por “apostolado”, “adaptando-se” aos seus ouvintes pouco inteligentes para o entenderem melhor. Na sua linguagem, Jesus não tinha que rebaixar-se porque ele, como os que o escutavam, era do povo e como o povo se expressava.
A Boa Notícia de Jesus, começou a fermentar no bairro dos pescadores de Cafarnaum, um lugar absolutamente popular. Popularesco, pobre e trabalhador. É preciso resgatar essas origens do Evangelho, pois, muitas vezes identifica-se Jesus com um homem mais urbano que rural, de bons modos, embora condescendente - por misericórdia - com um auditório embrutecido. Não. Jesus foi um de tantos homens da classe mais baixa daquele pequeno país. Encontrava-se em seu ambiente no bairro, entre crianças sujas, mulheres de mãos calejadas e patrícios que riam e praguejavam em volta de uma jarra de vinho.

(Mateus 4,13)

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Sua ação social atende as necessidades de sua comunidade?

O texto abaixo é uma reprodução do publicado no blog O ‘P’ da Letra, do nosso amigo José Luiz Possato Jr., assessor do Centro de Estudos Bíblicos do Rio Grande do Sul (CEBI-RS). De uma forma simples, tenho certeza que colocará uma pulga atrás da orelha de muito agente pastoral.


QUANDO O DISCURSO VAI PRO BURACO

O causo a seguir é uma adaptação de um dos esquetes do curso de Teatro e Bíblia, realizado no Rio Grande do Sul, voltado especialmente para o público juvenil, mas já adaptado, em diversas ocasiões, para outros grupos. Espero que gostem...------------------------------------

Estavam todas e todos a postos. O Presidente, Bíblia em punho, daria início à reunião. Não havia quem não admirasse o modo do Seu Zé interpretar as Escrituras. E ele dizia:

– Fazer justiça ao órfão, defender a causa da viúva, amados irmãos e irmãs, é socorrer os pobres, os marginalizados de hoje...

Várias cabeças balançando em sinal de aprovação. E ele prosseguia:

– Bem, pessoal! Hoje, retomamos o projeto social da nossa Igreja. Cumpre a nós continuar defendendo os órfãos e as viúvas do nosso tempo. Chamei vocês aqui porque tem trabalho pra todo mundo...

No meio da conversa, eis que entra D. Sílvia, a cara entre assustada e aflita. Todos percebem sua angústia. Alguém puxa uma cadeira:

– Sente-se, minha senhora! Quer um copo d’água?

– Não, obrigada! Eu só vim porque tenho um problema e me disseram que vocês poderiam ajudar.

Seu Zé olha pro céu, agradece a Javé, o Deus dos pobres, que enviou aquela mulher para confirmar que a Obra é de Seu agrado.

– Pois a senhora veio ao lugar certo. Como é o seu nome?

– Sílvia! Eu vim aqui porque tem um buraco na minha rua. Já falei com a prefeitura, com a agência de saneamento, as companhias de luz e telefone, e nada! Ninguém tá nem aí! E olhe que é ano eleitoral...

– Pois olhe... É até melhor assim. Ficar devendo favor pra político é um atraso de vida. Mas me diga, D. Sílvia, a senhora trabalha?

– Faço meus bicos...

– A senhora sabia que estamos iniciando um grupo de ação social aqui na Igreja? Desenvolvemos vários trabalhos muito legais que podem envolver toda a família. Hoje, por exemplo, faremos uma oficina de panificação.

– Hum...

– Como é a vida lá na sua rua? O pessoal é bem pobre, né!

– É, mas...

– Quantos filhos a senhora tem?

– Oito.

– Oito? Sabia que temos um trabalho específico para as crianças? Inclusive, nos dias de celebração, elas ficam com algumas gentis senhoras da comunidade que adoram contar historinhas bíblicas.

– Mas eles são grandinhos...

– Bom, então os mais velhos podem participar do grupo de jovens. Pelo menos, enquanto estão na Igreja, sabemos que não estão em más companhias, metidos em algum problema...

– Epa, peraí só um minutinho! Meus filhos não são muito de Igreja, vá lá... Mas nunca se envolveram com drogas ou coisa pior. Eles são trabalhadores, somos gente honesta...

– Calma, D. Sílvia, é modo de falar... É que esses jovens de hoje andam tão carentes de orientação...

– Não os meus filhos, isso eu lhes asseguro.

– Ok, ok, não precisa se zangar! Olha só... Que tal a senhora vir participar aqui com a gente. Temos um monte de outras coisas bacanas pra fazer. Às quartas é dia de entregar cestas básicas para as famílias carentes.

– Hum, tem um pessoal lá perto de casa que está mesmo precisando...

– Então, viu que legal! A senhora pode ajudá-los.

Seu Renato achou melhor reforçar o argumento do Seu Zé:

– E, certamente, a senhora vai se sentir bem por isso.

Seu Zé, que já havia falado sobre fazer o bem sem esperar recompensa, emenda:

– Claro, ajudar os outros sempre faz a gente se sentir melhor. Mas fazer o bem aos pobres é, antes de tudo, dever evangélico.

D. Sílvia, tentando assimilar tanta informação, limita-se a um aceno de cabeça, como quem está ponderando sobre o assunto. Sentindo a hesitação, Seu Zé faz outra proposta:

– E que tal o grupo das merendeiras? Elas fazem um sopão para reforçar o lanche que as crianças mais carentes ganham na escola. O que sobra, eu e alguns amigos aqui da comunidade distribuímos, junto com cobertas, para esquentar a noite dos moradores de rua.

– Olha, parece interessante... Mas vem cá! E o buraco lá da minha rua?

D. Olívia, que até aquele momento estava de espectadora, não se conteve:

– Ih, dona! Tando aqui com a gente, a senhora nem vai mais lembrar que o buraco existe.

D. Sílvia agradeceu e foi-se embora. Dizem que fundou uma associação de moradores do bairro. Continua brigando com a prefeitura por causa de outros buracos. O grupo de ação social? Vai muito bem! Hoje, a oficina é de tricô e crochê.

domingo, 2 de setembro de 2012

Um tal Jesus – Capítulo 12: HOJE É UM DIA ALEGRE

Este capítulo da novela sobre o contexto histórico e a trajetória do “moreno” de Nazaré relata o “dia feliz” no contidiano de Jesus, no qual Ele retornou de sua viagem ao Jordão. Ele inicia seu projeto e relata a Maria que quer ir a Cafarnaum, visitar os amigos que fez durante a viagem.

HOJE É UM DIA ALEGRE


Maria: ... Não, não acredite nisso, vizinha, não acredite... eu já percebi tudo... Jesus saiu preocupado, com aquele formigueiro de ideias esquisitas... Mas não pense você que é coisa de amor, não...  ah, bem que eu queria que fosse!... Ai, Jesus, filho... Tenho medo de que ele entre numa fria, vizinha... São tempos tão difíceis estes... Não, vizinha, não se levante, encoste-se bem... assim... você vai ver como esse caldo vai lhe fazer bem... esquenta até os ossos... Minha mãe preparava sempre esse remédio, vai ver como é bom...

Desde que Jesus deixou Nazaré para ir ao rio Jordão ver João, o profeta, os dias se tornaram muito longos para Maria. As tardes ela passava cuidando de sua vizinha, a mulher de Neftali, que estava meio doente...

Maria: ... pois eu lhe digo, vizinha, que nesses dias eu sinto como se sete anos tivessem caído em cima de mim... Imagine só, comendo sozinha... e depois, na hora de dormir, esse silêncio na casa... é que Jesus ronca muito, sabe... Mas pra mim, esse rum-rum me acompanha... Sabe, eu acho que era isso que me fazia dormir, porque agora acordo de repente no escuro, com esse sobressalto... Na noite passada, bem, um barulho... Ouço e já começo: Quem está aí? Quem está aí?... Até acendi a lamparina...  Ai, vizinha, quando a gente fica sem os filhos parece que falta metade da vida... Espere, eu vou jogar no caldo umas folhinhas daquela menta que tem ali no terreiro... Isso vai lhe cair como o próprio maná do céu... E se Jesus acaba ficando lá pelo Jordão, hein, vizinha?... Eu estou com essa ideia cravada aqui, na metade do peito, como uma agulha... Bom, Deus conhece a vida de cada um e sabe também para que serve a madeira de que cada um é feito... Ele saberá por que caminho quer que Jesus ande... O que eu peço é que Ele o guarde de todos os perigos, mas meu filho é tão teimoso... Nisso puxou seu pai, você não acha, vizinha?... Ah, você já dormiu... Então vou embora... tenha um bom sono...

Maria deixou a mulher de Neftali e caminhou até sua casa. Ao entrar, beliscou sem muita vontade um pedaço de pão preto e se jogou na esteira. Naquele dia estava muito cansada, e o sono veio logo para ela...

O sol começava a assomar pelo horizonte, apagando no céu as últimas estrelas que ainda estavam acesas. O ar fresco da manhã pôs a dançar as espigas e a erva do campo... Amanhecia em Nazaré. Jesus, cansado mas contente por tudo o que havia visto e ouvido no Jordão e na solidão do deserto, estava de volta.

Jesus: Ei, mas o que você está fazendo aqui tão cedo, Tonin, meu garoto!...

Tonin: Vim buscar caramujos. Ontem choveu e saíram muitos, veja...

Jesus: Ah, você gostaria dos lagartos que vi no deserto... eram  desse tamanho...

Tonin: Você estava no deserto?

Jesus: Sim, venho de lá.

Tonin: E o que você foi fazer lá?

Jesus: Nada, procurando...

Tonin: Procurando lagartos?

Jesus: Não, lagartos não. Procurava outra coisa.

Tonin: E a encontrou?

Jesus: Sim, a encontrei! Tchau, Tonin, depois você traz os caramujos para eu ver.

Tonin: Tchau, Jesus!

Maria, como sempre, estava acordada desde muito cedo. Havia posto água para esquentar no fogão para preparar as lentilhas e estava sentada no chão moendo o trigo para fazer a farinha do pão.


Jesus: Dona Maria, não teria um pouquinho de leite para um pobre caminhante?

Maria: Sim, mas, quem é?... Jesus, filho, é você?... Ah, que bom que chegou!...

Jesus: Aqui estou eu, mamãe!

Maria: Ai, obrigada, Senhor, obrigada! Todos os dias rezando a Deus para que o levasse bem e o trouxesse melhor! Pelo Deus bendito, já estava ficando preocupada, Jesus!... Você demorou muito e... e como foi com João? Dizem que o prenderam. Você estava lá quando isso aconteceu?

Jesus: Não, eu já tinha saído... É, o prenderam sim... Fecharam a boca do profeta.

Maria: É o que eu digo, Jesus, é o que eu digo... Acha que o mataram?

Jesus: Não, acredito que não!... Herodes não se atreveria. Acabará soltando João. Mas, enquanto isso, alguém terá de ocupar seu lugar. João acendeu um fogo e não podemos deixar que se apague.

Maria: Isso de que venha um outro profeta é coisa de Deus... Mas ... bem, não está com fome? Não está com sede? O que quer comer?

Jesus: O que temos aí?

Maria: Pois olhe, filho, quando você saiu estive em Caná e comprei esse vinho de lá que é uma delícia!... Disse: quando Jesus voltar o tomaremos! E já que você voltou... Aqui está! Olhe, umas tâmaras também...

Jesus: Ahhh...! Muito bom... Beba também, hoje é um dia alegre.

Maria: Jesus, vejo que está muito contente. Está mais magro, mas com uma cara melhor...

Jesus: Você sempre acerta... quem consegue esconder algo de você? É, estou contente, não posso negar. Apesar de um tanto preocupado com essa história do João... Um grande sujeito esse meu primo... A verdade, mamãe, é que por trás dessa viagem estava a mão de Deus...

Maria: Quando saiu, você estava muito nervoso. Fiquei pensando em tudo o que você havia dito, que estava inconformado, que não sabia por onde começar... Isso ficou dando voltas e voltas no meu coração... E agora, já sabe?

Jesus: João me ajudou a ver mais claro... Sabe de uma coisa, mamãe? Eu me batizei no Jordão... Foi... Foi algo grande... Tenho tantas coisas pra lhe contar...  Estive também no deserto...

Maria: No deserto? Mas, o que você foi fazer lá?... Ai, meu filho, então é por isso que está tão magro... Dizem que só os escaravelhos agüentam esse calor do deserto...

Jesus: Bah! isso é conversa. Ali eu também encontrei um lugar. E pensei muito... Mamãe, você imagina o que seria dizer aos pobres que Deus nos dá de presente o seu Reino, anunciar a todos os infelizes que choram em nossa terra que logo serão consolados?... Você imagina o que seria lutar pela justiça, sabendo que Deus vai à frente, junto conosco, ombro a ombro com a gente?

Maria: Seria algo grande, Jesus, seria algo muito grande!... Não haveria em Caná vinho suficiente para celebrar o dia em que isso acontecesse... Você está tão contente que até me contagia... Mas filho, veja, é preciso pôr os pés no chão... Esse dia chegará, mas nem você nem eu o veremos... Falta muito para esse dia...

Jesus: João diz que o Libertador está chegando.

Maria: Sim, os zelotas também dizem isso. E que ele cortará o pescoço de todos os romanos. Mas quem tem os pescoços cortados são eles. Tome cuidado com o que você fala, filho. Há mais soldados que nunca na Galiléia. Por causa da prisão de João eles têm medo que o povo se revolte... Está tudo vigiado.

Jesus: Pois olhe quem vem por aí... A comadre Suzana!

Suzana: Onde está esse moreno que já voltou do Jordão?... Ai, menino, que vontade eu tinha de ver você! Estávamos aqui, sua mãe e eu e todos mais assustadas que coelhos com essa história que nos contaram sobre João. Dizem que o tiraram do rio e o arrastaram como se fosse um animal perigoso... Ai, moreno, onde vai parar esse nosso país?

Jesus: Mas você está muito nervosa, Suzana... Que história é essa de estar assustadas como coelhos?... A voz dos profetas não pode ser calada nem por Herodes, nem por ninguém. Nós todos temos de continuar gritando com a voz de João.

Suzana: Não lhe disse, comadre Maria, não lhe disse? Olhe como ele voltou. Feito um revolucionário... desafiando o rei Herodes!

Jesus: Mas Suzana, fique tranquila... Venha cá, por que não prova um pouco desse vinho?... creio que você está precisando disso para ficar mais alegre...

Suzana: Alegre! Alegre!... O que aconteceu lá no Jordão, Jesus? Conte-nos o que você viu por lá...

Jesus: Vi coisas grandes. Faz tempo que em Israel não se ouviam verdades tão verdadeiras. Faz tempo que o povo não olhava para o céu com tanta esperança.

Suzana: E o que é que virá do céu para que tenhamos de ficar olhando pra cima? É para terra que é preciso olhar, moreno. E na terra manda Herodes, manda Pilatos e todos esses safados. Vão matar esse profeta João e se você se meter com esses encrenqueiros, matarão você também.

Maria: Bem, Suzana, deixe isso pra lá... Hoje é um dia alegre, devemos estar contentes, não venha você estragar agora a festa com o...

Suzana: Olhe, Maria, não mude de lado agora, porque você era a primeira a ter o coração na boca quando trouxeram a notícia sobre João... E não era para menos, rapaz. Como não se preocupar?... A gente ainda se lembra de seu pai, José... como apanhou, Deus meu!... E tudo por defender aqueles fugitivos que andavam se escondendo...

Jesus: Meu pai foi um homem justo que não deu pra trás quando chegou o momento. Sou muito orgulhoso dele. E Deus também está orgulhoso... Você já pensou o que seria, Suzana, se pudéssemos anunciar aos quatro cantos desta Galiléia que ele e todos os que morrem pela justiça preparam o Reino de Deus?

Suzana: Ai, meu filho, não se ponha a gritar isso por aí que o matam também! Não grite nada, moreno. Cada um deve ficar na sua. Vamos trabalhar e ficar tranquilos, que é isso que Deus quer, a paz, a tranquilidade.

Jesus: Fica melhor você dizer que é isso que alguns querem, que continuemos dormindo como Noé dentro de uma tenda, para eles nos deixarem de cueiros.

Suzana: Não fale assim, Jesus. E você, Maria, aconselhe esse rapaz que um dia ainda vai lhe dar muito desgosto com essa indigestão política. Escute o que eu digo, moreno, jogue fora essas ideias esquisitas e fique aqui tranquilo com seu martelo e seus pregos. Aprende isso de seu pai, José, caramba, que tão bom exemplo lhe deu.

Jesus: E agora você vem com essa de meu pai. Parece que você nem o conheceu, Suzana. Já não se lembra mais quando Boliche e ele foram protestar em Naim por causa do preço da farinha, hein?... Não se lembra mais?... E quem se levantou na sinagoga quando a raposa do Ananias queria mudar a cerca da fazenda e ficar com as terras do Baltazar?

Suzana: Mas isso aconteceu faz muito tempo...

Jesus: Muito tempo, mas as pessoas não se esqueceram.

Suzana: É, eu não digo que se esqueceram, não...

Maria: Bem, bem, deixem as discussões para amanhã, que por hoje já tivemos bastante. Vocês dois sempre andam como cachorro e gato. Eia, onde está a jarra...?

Jesus: Isso mesmo. Venha, Suzana, mais um pouco de vinho para ver se você se anima e se lhe passam esses medos de uma vez...

Suzana: E aí, Maria? Este foi o vinho que você trouxe de Caná?

Maria: Este mesmo. Lá eles o vendem barato e é muito bom.

Jesus: Se você gostou dele, posso lhe conseguir alguns litros quando passar por lá...

Maria: Vai viajar a Caná, Jesus?

Jesus: Sim, dentro de um par de dias quero ir até Cafarnaum. Passarei por Caná.

Maria: Mas aqui você ainda tem trabalho pendente. Tenho três encomendas para você. Sabe que o romano voltou e quer que você faça mais ferraduras?

Jesus: Não me diga que ele gostou daquelas!... Bem, pois então teremos outro denário para lentilhas e azeite...

Maria: Você tem que fazê-las logo...

Jesus: Sim, eu as farei. Mas é que eu conheci lá pelo Jordão uns caras de Cafarnaum. São pescadores do lago e ficamos muito amigos. Queria tornar a vê-los...

Suzana: Estou certa de que querem meter você em suas conspirações. Por acaso um deles não é um tal de Simão, que chamam de Pedro?

Jesus: Sim, é um deles. Você o conhece, Suzana?

Suzana: E como conheço! É o filho do velho Jonas. Eu até sou meio parente da mãe dele, que descanse em paz. Ai, moreno, esse aí desde menino era mais briguento do que um galo no cio!

Jesus: É um grande sujeito esse Pedro. E seu irmão também.

Suzana: Andrezinho, o magricela, como o chamavam...

Jesus: Sim, André. E tem mais outros que conheci por lá...

Maria: E havia muita gente pelo Jordão, Jesus? Conte-nos...

Jesus: Mamãe, aquilo parecia um formigueiro. Muita gente, muita. O rio estava cheio de gente, e o melhor de tudo é que eram homens e mulheres com esperança, com ganas de que as coisas mudem em nossa terra. E eu também creio que podemos mudar as coisas nesse país. Temos de fazer isso!

Maria: Me alegra ver você tão contente, Jesus. Você não acha, Suzana, que ele está com uma cara muito boa?

Suzana: O que eu estou vendo é que esse seu filho voltou com a cabeça muito quente e...

Jesus: Vamos, Suzana, pare com isso e sente-se por aí, pois com esta viagem tenho histórias para um bom tempo...

Suzana: Espere aí, moreno, vou correndo avisar o Simeão e a velha Sara... e também o Neftali e os rapazes.

Jesus: Sim, diga a todos que venham, que tenho muitas coisas para contar.

E todos os vizinhos se reuniram na casa de Maria para escutar as notícias do profeta João... Já fazia uns trinta anos que Jesus morava naquele povoado de Nazaré vivendo com aqueles patrícios seus, trabalhando a madeira, o ferro, a terra ou o que aparecesse, como um a mais, como um entre tantos... Agora, para ele havia chegado o momento de ir abrir os sulcos do Reino de Deus lá em Cafarnaum, junto ao lago da Galiléia. Naquela manhã de primavera tudo parecia novo. As espigas prometiam pão e as árvores, frutos. Uma grande esperança estava chegando para Israel.

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Jesus havia deixado um dia Nazaré, a aldeia onde havia sido criado, e foi viver em Cafarnaum, uma cidade às margens do lago, bastante grande e importante naquele tempo. E embora Cafarnaum não estivesse tão longe de Nazaré (uns 45 km), a decisão trazia consigo uma despedida de sua mãe e de seus patrícios. Este momento da despedida de Jesus e Maria no começo da “vida pública”, é um tema que tradicionalmente serve de reflexão aos cristãos. Todos, na hora de fazer uma opção, temos que dizer mais de um adeus e renunciar a alguma coisa. Uma vocação de serviço sempre supõe sacrifícios. É o preço do Reino de Deus.

Jesus compartilha com sua mãe o que havia descoberto no Jordão ouvindo o Batista e na solidão do deserto. Maria, como Jesus, foi crescendo na sua fé e na compreensão da vocação de seu filho, na aceitação da missão a que Deus o destinava. Esse processo significou para ela dúvidas, sofrimentos, medo, ansiedades, insegurança. Como o é para tantas mães o compartilhar o compromisso de seus filhos que lutam pela justiça pondo em perigo até a própria vida.

De José, o evangelho apenas diz que era um “homem justo” (Mt 1,19). Partindo desta frase tão simples e tão profunda, é bom reconstruir a imagem de José para que sirva aos cristãos de modelo não só de honradez, mas de compromisso, valentia, inclusive rebeldia: tudo o que significa ser um homem justo. Este exemplo de vida foi o que José deixou a Jesus como melhor herança. Ele veria seu pai tomar partido quando chegava o momento, colocando-se do lado dos mais necessitados. José deve ter tido uma influência decisiva sobre Jesus. Não há nenhum fundamento - nem histórico nem teológico - para essas imagens que nos apresentam o esposo de Maria como um homem ancião, resignado, passivo, sem vitalidade.