A reflexão abaixo foi postada originalmente no blog O‘P’ da letra, do amigo José Luiz Possato Jr. Em tempos de conclave, Fraternidade e Juventude, Jornada Mundial da Juventude e
comemorações pelos 40 anos da PJ, é uma excelente reflexão a ser feita pela
juventude, pela Igreja e pela sociedade como um todo. Por isso, reproduzo-a aqui.
Ao fazer a reflexão é possível ver que a mulher cananeia
não se intimidou com a repressão e foi à luta na busca pelo atendimento de suas
necessidades. Veremos também que Jesus “deu o braço a torcer” e atendeu a
reivindicação dela.
E nós, conseguimos superar as barreiras que mantém
nossas necessidades no anonimato? E quando somos nós que temos que “conceder os
desejos”, atender as reivindicações, “damos o braço a torcer”? E a Igreja, dá?
Roteiro
Bíblia e Juventudes: Saindo do Anonimato
O roteiro a seguir foi utilizado numa oficina da PJ-ICAR, mas poderá ser
utilizado por grupos de jovens de todas as denominações.
Seminário de abertura
dos 40 anos da PJ
São Leopoldo/RS – 09 e
10 de março de 2013
OFICINA DE BÍBLIA E
JUVENTUDES
(ASSESSOR: José Luiz
Possato Jr.)
PERGUNTA: Como se faz uma Leitura Popular e Juvenil da Bíblia?
Exercício => Ler Ex 18,1-12 - 1Jetro,
sacerdote de Madiã e sogro de Moisés, ficou sabendo de tudo o que Javé havia
feito com Moisés e com seu povo Israel: como Javé havia retirado Israel do
Egito. 2Quando Moisés mandou sua mulher Séfora de volta, Jetro,
sogro de Moisés, recebeu-a 3junto com os dois filhos. Um deles se
chamava Gérson, porque Moisés dissera: “Sou imigrante em terra estrangeira”.
4O outro se chamava Eliezer, porque: “o Deus de meu pai é minha
ajuda e libertou da espada do Faraó”. 5Acompanhado da mulher e
filhos de Moisés, Jetro foi encontrar-se com ele no deserto onde estava
acampado, junto à montanha de Deus. 6Informaram a Moisés: “Sua
mulher e seus dois filhos estão aí juntamente com seu sogro Jetro”. 7Moisés
saiu para receber o sogro, inclinou-se diante dele e o abraçou. Os dois se
cumprimentaram e entraram na tenda. 8Moisés contou ao sogro tudo o
que Javé tinha feito ao Faraó e aos egípcios, por causa dos israelitas. Contou
também as dificuldades que tinham enfrentado pelo caminho e das quais Javé os
havia libertado. 9Jetro ficou alegre por todos os benefícios que
Javé tinha feito a Israel, libertando-o do poder egípcio. 10E disse:
“Seja bendito Javé, que libertou vocês do poder dos egípcios e do Faraó. Ele
arrancou este povo do poder do Egito. 11Agora eu sei que Javé
é o maior de todos os deuses, pois quando eles tratavam vocês com arrogância,
Javé libertou o povo do domínio egípcio”. 12Depois, Jetro, sogro
de Moisés, ofereceu a Deus um holocausto e sacrifícios. Aarão e todos os
anciãos de Israel foram e fizeram a refeição com ele na presença de Deus. (versão
Ed. Pastoral online)
Questões:
1) Que personagens aparecem no texto?
2)
Quem são os
protagonistas? Algum/a deles é jovem?
3)
No v.6,
quem é anunciado primeiro a Moisés?
4)
Quem entra
com Moisés na tenda? O que fazem lá dentro?
5)
O que
acontece com Séfora e os filhos no fim da história?
6) Em que momento/s a juventude é deixada do lado de fora da tenda, isto
é, fica excluída do núcleo de tomada de decisões?
7) Quando Jesus é questionado por uma estrangeira (Mt 15,21-28), a
postura decidida da mulher faz com que ela seja notada, isto é, saia da
marginalidade. Que outros trechos podem ser citados nesse sentido?
8) Como esses textos nos ajudam no processo de empoderamento juvenil?
Mateus 15,21-28 - 21Jesus saiu daí e foi
para a região de Tiro e Sidônia. 22Nisso, uma mulher cananeia, que morava
nessa região, gritou para Jesus: “Senhor, filho de Davi, tem piedade de mim.
Minha filha está sendo cruelmente atormentada por um demônio.” 23Mas
Jesus nem lhe deu resposta. Então os discípulos se aproximaram e pediram: “Manda
embora essa mulher porque ela vem gritando atrás de nós.” 24Jesus
respondeu: “Eu fui mandado somente para as ovelhas perdidas do povo de
Israel.” 25Mas a mulher, aproximando-se, ajoelhou-se diante de
Jesus e começou a implorar: “Senhor, ajuda-me.” 26Jesus lhe
disse: “Não está certo tirar o pão dos filhos e jogá-lo aos cachorrinhos.”
27A mulher disse: “Sim, senhor, é verdade; mas também os
cachorrinhos comem as migalhas que caem da mesa de seus donos.” 28Diante
disso, Jesus lhe disse: “Mulher, é grande a sua fé! Seja feito como você
quer.” E, desde esse momento, a filha dela ficou curada.
Ajudando a reflexão:
A reunião de um grupo de homens numa tenda, com o intuito de fazer
memória da intervenção divina e honrá-la por meio de rituais e sacrifícios,
indica-nos com toda certeza que este é um texto de tradição sacerdotal.
Portanto, trata-se de um escrito do pós-Exílio, onde o poder interno, tanto
político quanto religioso, está centrado no Templo de Jerusalém. O domínio
econômico e militar é exercido por um imperador estrangeiro, não
necessariamente o Faraó egípcio, mas certamente um opressor indesejado. Nesse
momento crítico, a memória do Êxodo ajuda a animar a caminhada.
Porém, na luta por libertação, de alguma forma, há sempre o risco de se
reproduzir os mecanismos da opressão. Assim, as mulheres e crianças (e podemos
incluir aí os jovens), mesmo que insistam em se fazer presentes (depois de
Moisés ter despachado Séfora e os filhos para a casa do sogro, ela bate
novamente à “porta” de sua tenda), são impedidos de participar das decisões.
Essa dominação histórica atravessa os séculos até chegar aos tempos de
Jesus e encontrar uma mulher cananeia que questiona a estrutura e, com isso,
muda a crença e a trajetória do próprio Cristo. O texto de Mateus, escrito para
judeus da diáspora provavelmente, mostra o momento exato em que o Evangelho se
abre aos não-judeus, usando nada mais simbólico do que uma mulher estrangeira,
ou seja, uma personagem duplamente excluída pela sociedade judaica da época.
Chama atenção a postura dos discípulos: “Manda embora essa mulher
porque ela vem gritando atrás de nós” (v.23b). Lendo as entrelinhas, é
possível entender o seguinte: “Manda essa mulher embora porque a
gritaria é grande e já desperta os olhares dos demais. Mulher, criança e jovem
têm que saber se pôr no seu devido lugar. Que palhaçada é essa de ficar fazendo
reivindicações? Já pensou se a moda pega?” São tão próximos de Jesus que
sofrem a tentação de querê-lo só pra si. Não entendem que a Boa nova é para
todos os povos.
O próprio Jesus entende que a preferência é dos israelitas. Compara a
mulher a um cachorrinho, digno apenas do que “cai da mesa”. Porém, a reação
dela o desarma completamente. Em vez de protestar, ela procura demonstrar que
nem o direito às migalhas está sendo respeitado. Derrotado, não resta outra
coisa além de atender ao pedido.
É interessante, ainda, notar o movimento de aproximação da mulher. Ela
começa a narrativa gritando. Ou seja, está tão longe (ou abafada?) que não é
fácil escutá-la. Porém, a insistência é tanta que começa a incomodar. Já não
sendo possível ignorá-la, nada mais impede que ela se coloque de joelhos aos
pés de Jesus. O desfecho é lindo, digno de um retrato. Mas um quadro imóvel não
faria jus ao que realmente está em jogo nesta cena: quando os espaços não são
dados; devem ser conquistados.
Hoje, olhando a realidade de nossas jovens e nossos jovens, urge
perguntar: Quais são os seus espaços? A quais elas e eles têm direito? Estão
sendo respeitados? O jovem participa das decisões políticas do nosso país? O
que é preciso fazer para sair da invisibilidade? Buscar respostas para estas
questões – e outras a elas relacionadas – é fundamental para definirmos o norte
da nossa caminhada.
Nenhum comentário:
Postar um comentário