quinta-feira, 12 de julho de 2012

Jovem, chegou a sua vez

O texto abaixo, escrito por Rogério de Oliveira, foi publicado originalmente no blog Epor falar em pastoral... Traz importantes reflexões sobre a Campanha da Fraternidade de 2013 e exorta a todos os católicos, principalmente os jovens, a colocarem, desde já a CF 2013 nas ruas. É preciso preparar o terreno e aproveitar o tema da CF para mostrar aos jovens, principalmente àqueles que não praticam sua fé, que estão afastados da Igreja, o quão bom e agradável é participar de um grupo de jovens e colocar sua vida à serviço dos outros. Leia o texto e tenha uma boa reflexão. E, principalmente, criatividade para colocar a CF 2013 nas ruas desde já.



Depois de 21 anos, a Igreja no Brasil traz de volta a reflexão do tema “juventude” em 2013 durante a Campanha da Fraternidade (CF). Vivi intensamente o ano de 1991, preparando a CF do ano seguinte. Tenho em meu coração um espaço de saudade daqueles anos. Eu havia conhecido a PJ em 1989. Tínhamos na paróquia uma assessoria efetiva e afetiva dos salesianos e salesianas. E pudemos ir preparando o terreno para uma boa organização paroquial da PJ por lá.

Olho para o cartaz da CF 92 e muitas recordações vem em minha mente. Uma delas é de que, pela primeira vez, eu ouvia falar de juventude na Igreja como um elemento renovador. Era “o novo”, falávamos e líamos nos documentos. Os cantos litúrgicos e de animação tocavam neste ponto.Tantas iniciativas. Tantos cursos. Tantas palestras. Tantos festivais. Tantos shows. Teve até escola de Samba falando no tema! Era o ano da juventude. Foi um despertar!

Pois então, vinte e um anos depois, nós estamos novamente às vésperas de outro “ano da juventude”. 2013 chega anunciando nova CF sobre juventude e pela primeira vez a Jornada Mundial da Juventude acontecendo no Brasil. Aqui nas terras paulistas, também estaremos celebrando 40 anos de organização pejoteira. É um ano bonito e cheio de desafios.

E será um ano e meio em que se deve trabalhar muito. Sim. Um ano e meio. O trabalho, se acaso não começou, deve começar já! É hora de botar a CF 2013 na rua. É preciso pensar em como iremos, estrategicamente, colocar na pauta das discussões a vida da juventude e a missão evangelizadora de nossos grupos como promotores e portadores de sinais do Reino de Deus.

Os coordenadores dos grupos de jovens já estão por dentro destas discussões? Estamos capacitando as lideranças? Como estão os processos de acolhida e de aproximação com os jovens fora da Igreja? Como estamos vivendo o relacionamento com os outros juvenis dentro das nossas comunidades? Estamos levando para o poder público e para a sociedade civil as questões que atingem diretamente a vida de tantos jovens? Estamos nos espelhando na vida e na prática de Jesus e das primeiras comunidades para poder realizar tudo isso?

Façam fóruns, rodas de conversa, seminários, retiros. Tragam para o centro das discussões as estratégias que devem ser adotadas para que esta CF tenha bons frutos. O que eu vou dizer é um clichê, mas é verdade: a gente colhe sempre aquilo que planta. Este momento, agora, é hora de começarmos a plantar, caso ainda não se tenha começado.

Há amigos que olham os primeiros sinais da próxima Campanha da Fraternidade (Hino, Cartaz) e ficam receosos. Outros não conseguem se enxergar nestes mesmos primeiros sinais. A eles eu digo: a vida pode ter a cor que queremos que ela tenha, mas para isso é preciso agir. Um símbolo não tem valor fechado sem a devida interpretação. O cartaz da CF 92 tem um grande valor simbólico para mim dado a tudo que vivi naquele período, mas nunca fui atrás da interpretação oficial. Com o novo cartaz pode ser a mesma coisa. O importante é que consigamos dar à juventude que está nos grupos da PJ um gosto bom e a intensidade de um momento bem vivido enquanto estiverem refletindo e vivenciando os momentos preparatórios e quaresmais desta nova Campanha da Fraternidade.

Há um campo de missão enorme aí! Há um tempo de esperança e um tempo de oportunidades. “Eis-me aqui. Envia-me”. Há tanto trabalho a ser feito. Há tanta juventude sem oportunidade, vítima de um sistema que a exclui e a joga para a marginalidade e daí para a criminalidade. “Eis-me aqui. Envia-me”. Há tantos jovens carentes de formação, carentes de lazer, carentes de carinho, carentes de sentido. Há tantos muros e tão poucas pontes.

É oportunidade boa, Pastoral da Juventude. É a chance de chegar em comunidades, nuclear grupos, apresentar a espiritualidade libertadora de Jesus, a espiritualidade do cotidiano, viva, sonhadora, lutadora e pensante. É hora de preparar bem o nosso povo. Há muitos para ouvir aquilo que temos a dizer. É um tempo urgente. É hora de ir aonde muita gente não quer, Pastoral da Juventude... “Ei! Oh nós aqui, oh! Envia-nos”.

sábado, 7 de julho de 2012

Um tal Jesus - Capítulo 4: A Justiça de Deus

Capítulo 4


A JUSTIÇA DE DEUS


A João, o Batista, vinham ouvir pessoas da terra da Judéia, da cidade de Jerusalém e da longínqua Galiléia. Quando se arrependiam e confessavam seus pecados, o profeta as batizava nas águas do rio Jordão. Meu irmão Tiago e eu, Pedro e seu irmão André, Felipe, Jesus e Natanael também estávamos ali... 

Batista: E é o Senhor quem me diz: levanta tua voz como trombeta e denuncia os pecados de meu povo e as suas rebeldias. Grita nos campos e nas cidades as injustiças que cometem contra os pobres!... Convertam-se ao Senhor! Convertam-se de coração e Ele lhes devolverá a vida!

Felipe: Este profeta fala sempre a mesma coisa. Não sei como não se cansa. Faz duas horas que estamos aqui e dá-lhe que dá-lhe com a mesma cantilena...

Natanael: Shss!! Cale-se já, Felipe e deixe-me ouvir...

Felipe: Ora, Nata, é que já estou ficando aborrecido...

Tiago: Não seja estúpido, Felipe. Ao povo tem de gritar mesmo para que as coisas lhe entrem pela moleira.

Felipe: “Convertam-se, convertam-se... oh, ah, eh...” Mas que diabos é converter-se, não entendo isso!...

João: Converter-se é mudar. E mudar é derrubar os romanos e tirá-los da nossa terra.

André: Ande, Felipe, pergunte ao profeta o que você tem de fazer para se converter. Ele lhe dirá. João gosta que as pessoas lhe façam perguntas.

Felipe: Você acha, André?

André: Mas é claro, homem. Pergunte alguma coisa.

Felipe: Eh, profeta de Deus! Profeta João!

Natanael: Felipe, pelo amor de sua mãe de Betsaida, cale a boca. Não arme tanto alvoroço...

Felipe: É que eu preciso perguntar uma coisa ao profeta... Ei, profeta  João !...

Natanael: Vai meter as mãos pelos pés como sempre...

Batista: Quem me chamou?

Pedro: É este cabeção aqui ó, que quer perguntar uma coisa!... Aqui!

Batista: O que você quer saber, irmão?

Felipe: João, você fala muito de converter-se, de mudar, de preparar o caminho a este que vai chegar... Mas diga-me: como é que eu posso preparar? Nós que somos uns mortos de fome, o que podemos fazer? Que temos de fazer?

Batista: O primeiro de tudo é a justiça! Me ouviu? A justiça!.

Felipe: Explique-se melhor, profeta. Eu sou um homem ignorante e...

Batista: Quantos mantos você tem?

Felipe: Como é?

Batista: Quantos mantos você tem!?

Felipe: Bem, me dá até vergonha de dizer, mas... só tenho um em casa e este outro que estou vestindo...

Batista: Tem dois. Sobra-lhe um. Dê a quem não tem nenhum. Em Israel há muita gente nua, que não tem sequer um trapo para se cobrir!... Quer que eu fale mais claro? ... Você, aí desse lado... não se esconda.... quantos pares de sandálias você tem? Dois? Três? Sobram-lhe as que não estão calçadas. Em Israel há muitos descalços que não têm nenhum par de sandálias. Reparte as suas com eles. Você tem dois pães? Dê um a quem passa fome. Que a ninguém lhe sobre para que a ninguém  falte... Isso é o que Deus quer. Isso é converter-se: repartir. Justiça, irmãos, justiça! Eu preparo os caminhos do Senhor. E o Senhor grita pela minha boca: que todos comam, que todos tenham com que se vestir, que todos possam viver!... Ai do homem que vira as costas para seu irmão, porque está dando as costas para o próprio Deus!... Ai daquele que fecha a porta ao peregrino, porque esse caminhante é o Messias que vem bater à sua casa.

Tiago: Muito bem! É isso mesmo que nós zelotas dizemos! Justiça!

Felipe: Bem, Pedro, já pode ir dando esse manto que você tem nas costas... O profeta diz que é preciso repartir o que cada um tem... E há que começar pelos amigos, digo eu! A boa justiça começa com os de casa, não é isso, André? 

André: Esse homem é um profeta de verdade. Todos os profetas de antes falavam de justiça. A voz dos profetas é sempre a mesma voz.

Natanael: Pois eu digo que esse negócio de dar a metade do que se tem... Eu, por exemplo, tenho uma oficina e quatro ferramentas, mas isso... isso não é ser rico... eu tenho o justo para...

Tiago: Não se preocupe, Natanael. Os ricos são outros. Olhe só esses que estão chegando aí... Traidores! 

Por entre as pessoas abriam caminho até à margem dois homens com turbantes de seda. Um era alto e com o rosto todo marcado de bexigas. Esse conhecíamos menos. De quem sabíamos muitas coisas era do outro. Chamava-se Mateus e cobrava os impostos  em nossa cidade, Cafarnaum. Mancava um pouco e tinha uma barba grisalha, muito curta e cheia de falhas. Como sempre, andara bebendo... Todos odiávamos Mateus porque era um colaborador dos romanos. 

Tiago: Seus traidores! Fora, fora daqui!
Todos: Fora! Abaixo os traidores! Sumam daqui, seus vermes!

Jesus: Parece que este homem está bêbado.

João: Claro, sem vinho nas tripas não teria se atrevido a vir até aqui. Nós o conhecemos bem, Jesus. Posso garantir que em todo o país não se encontra um tipo mais covarde que esse Mateus.

Felipe: Ouça, Tiago, minhas orelhas já estão zunindo. Pare de gritar, caramba! Pelo que eu sei esse lugar é para os pecadores, não? Mateus pode ser o maior bandido de todos, mas também tem direito de ver o profeta.

Tiago: Esse publicano só tem direito a que o enforquem!

Mateus e seu companheiro conseguiram chegar até à margem. Naquele momento, João estava batizando umas prostitutas muito maquiladas. Mateus esperou um pouco até que saíssem da água...

Mateus: Profeta do Altíssimo! Ouvimos aquele galileu perguntando o que tinha de fazer...!

Todos: Fora! Traidores! Fora!

Batista: Silêncio! Quero escutar o que esse homem está dizendo! E Deus também quer escutá-lo. Fale!

Mateus: Profeta do Altíssimo! O que nós temos que fazer? Somos judeus mas... cobramos os impostos para os romanos. O que nós temos de fazer?

Batista: Não manchem as mãos cobrando mais do que manda a lei! Os romanos despejaram uma dura carga sobre as costas do nosso povo. Não aumentem vocês essa carga, roubando do povo o pouco que lhe resta! Os romanos pisotearam nossas terras. Não tornem vocês mais pesado o jugo nem mais opressora a mão dos estrangeiros.

Mateus: E haverá salvação para nós?

Batista : Há salvação para quem busca salvação! Aquele que vem depois de mim, separará o trigo da palha. O trigo, ele guardará em seu celeiro e a palha, a queimará num fogo que não se apaga. No entanto, é tempo de mudar!... Convertam-se, deixem-se lavar pela água que purifica! 

Os dois publicanos se aproximaram da água. Mateus ia cambaleando. Era por medo e também pelo que havia bebido... Então o profeta João os agarrou pelos cabelos e os afundou nas águas sujas e quentes do Jordão, nas quais flutuavam revoltos os pecados das prostitutas, dos pobres e dos usurários, os grandes pecados e os pequenos pecados, todas as culpas do nosso povo... 

Um soldado: Mestre! João!... Queremos falar também!

Batista: O que querem vocês?

Soldado: Você falou antes dos romanos. Somos soldados romanos. Viemos vê-lo porque sua palavra chegou também aos nossos ouvidos. Levamos o uniforme dos que se tornaram os donos desta terra, mas também queremos batizar-nos. O que temos de fazer para nos salvarmos no dia mau?

Batista: O único dono desta terra e de todos os povos da terra é Deus! Vocês agora são fortes, e golpeiam os fracos. Amanhã virão outros mais fortes e golpearão vocês. Porque os reis e os governos deste mundo são como a erva que hoje está verde e amanhã seca e se queima. O único rei é Deus! A única lei é a de Deus! E a lei de Deus é a justiça!

Pedro: Tome cuidado, profeta! Se você continuar falando assim, alguém vai dedurá-lo a Pilatos!

Batista: O dono de todas as vidas é Deus! Não é Pilatos, nem Herodes, nem o exército romano! Vocês, soldados, não ameacem as pessoas, nem acusem ninguém pelo que não fez. Não digam palavra falsa no tribunal. Não usem da mentira nem abusem da espada. Conformem-se com a paga que lhes dão e não roubem do pobre seu teto e seu pão. Isso é o que vocês têm de fazer, soldados romanos!

Felipe: Estou gostando deste profeta. Grita contra a gente, mas também grita contra os romanos. Esse João é um valente...

Pedro: Bem, vamos embora... Por hoje já ouvimos gritos demais  desse João batizador...

Jesus: Espere, Pedro... Gostaria de perguntar algo ao profeta...

Pedro: Quem? Você? ... Ora, Jesus, já sabe o que ele vai responder: justiça, justiça, justiça. Eu vou embora...

Jesus: Espere um momento, Pedro... João, queria perguntar-lhe uma coisa!

Batista: Fale, galileu, estou ouvindo!

Jesus: Profeta João, eu... eu não sei se estou me metendo no que não devo, mas...

Batista: Fale mais alto, pois não consigo ouvir nada!

Jesus: Eu dizia que... Bem, que você diz: deem esmola a todos os famintos. Você diz: não roubem ao cobrar impostos. Você diz: não abusem da espada. Tudo isso está muito bem, mas... esses são os galhos, não? Mas... e o tronco? Como fica?

Batista: O que você quer dizer com isso?

Jesus: É que eu acredito que se os galhos dão frutos ruins, mesmo que alguém os pode, eles continuarão saindo ruins. É que o tronco está mal. São as raízes que estão podres... Profeta João,  o que temos de fazer para arrancar essas raízes, para que não haja famintos que precisem de esmola, para que não haja soldados que utilizem espadas, para que não haja governantes que nos esmaguem com impostos?

Batista: Quem é você?

Jesus: Eu me chamo Jesus. Vim ontem com dois amigos do norte. Escutei você falar e por isso pergunto.

Batista: Eu não posso responder o que você me pergunta. Outro lhe responderá. Eu batizo com água, mas depois de mim virá alguém que batizará com fogo. Com fogo e com o Espírito Santo. A mim me cabe podar os galhos. A ele corresponde arrancar a árvore pela raiz, queimar as raízes más e limpar todo o pomar.

Jesus: E quem é este que há de vir? De quem você está falando? 

Mas João não respondeu a mais nada. O vento começava a soprar na beira do Jordão. Os caniços se inclinaram e as águas formaram redemoinhos grandes e pequenos. João, do alto de uma rocha ficou olhando o infinito. Seus olhos queimados pelo sol e ardentes de esperança buscavam no horizonte Aquele que devia vir.

Comentário

A justiça é um tema maior ao longo de todas as Escrituras. Que Deus seja justo, como repetem uma ou outra vez os profetas, quer dizer que é libertador, que toma partido dos pobres e exige que se respeite o direito dos oprimidos; que é reto, que não se deixa subornar pela palavra enganosa ou pelo culto vazio. O Reino de Deus que há de vir e se anuncia ao povo, é um Reino de Justiça. Um Reino de Igualdade no qual a esperança dos pobres será alcançada. Conhecer a Deus, que em linguagem bíblica é o mesmo que amá-lo, é praticar a justiça (Is 22,13-16). A religião verdadeira é reconhecer o direito dos pobres e estabelecer relações de justiça entre os homens (Is 1,10-18;  Jer 7,1-11).
Ao anunciar a Justiça, João Batista exigia dos que iam ouvi-lo, a “conversão”. O sentido bíblico desta palavra não é “confessar-se, arrepender-se, ter remorsos de consciência”, mas mudar o modo de pensar e agir, voltar-se ao Deus justo e, como ele, praticar a justiça. Não se pode entender a conversão a Deus sem uma conversão aos homens, aos pobres. Converter-se é compartilhar. E aquele que não compartilha, coloca-se fora da justiça de Deus.

Diante dos soldados romanos, João concretiza a conversão em não abusar do poder. Os soldados romanos, embora estrangeiros, eram recrutados entre as classes populares. Como servidores do imperialismo, contagiados pela corrupção do sistema, se sentiam valentes ao verem-se armados e atropelavam o povo. Os publicanos, como Mateus, eram os coletores de impostos, funcionários do império ou das autoridades locais. Deste posto, também de poder, extorquiam os pobres. João exige deles que renunciem à fraude na coleta do dinheiro. A conversão sempre passa pelo bolso. Supõe sempre uma renúncia ao poder. Não bastam as boas intenções.

A pergunta que Jesus faz a João o Batista, coloca o tema do pecado estrutural e do pecado pessoal: pode-se podar os galhos velhos de uma árvore, mas se as raízes estão podres... O pecado, a injustiça, não são somente um mal individual, que tenha remédio também por uma conversão entendida individualmente. Há situações de pecado: um regime econômico baseado no lucro, na ganância de uns poucos, na competição que produz pobres cada vez mais pobres e ricos cada vez mais ricos, é uma estrutura de pecado. Um regime político que não permite a participação do povo nas decisões, que utiliza a tortura, o crime, a fraude, a corrupção para manter-se, é também um pecado institucional. Para transformar uma estrutura de pecado, é muito pouca coisa as mudanças individuais. Necessita-se de uma libertação integral. E o Evangelho não é só um apelo à conversão pessoal, mas um projeto de transformação radical da sociedade.


(Lucas 3,7-18)

quinta-feira, 5 de julho de 2012

CEBs - Aproximando a Igreja do Povo de Deus

Muita gente, principalmente as novas gerações, vive me perguntando o que são as Comunidades Eclesiais de Base, o que elas fazem, como são suas celebrações, como elas funcionam... Explico mdo meu jeito e poderia escrever aqui um texto explicando, mas é bom respeitarmos o que já está sistematizado e publicado, ainda mais sendo omautor do texto o renomado Frei Betto.

O texto abaixo, de autoria do Frei Betto, foi extraído do livro Militantes do Reino, Catecismo popular, que é parte da Coleção Fé e Libertação, publicado pela Ed. Ática. Esse é apenas o capítulo 7 do livro, que merece ser lido em sua íntegra, mesmo sendo um pouco antigo. Mas, antigo por antigo, a Bíblia nos mostra que “velhos” livros podem nos trazer grandes ensinamentos, não é mesmo?

Segue abaixo o texto. Contando as imagens, são apenas quatro páginas, mas o ensinamento é muito grande. Aproveite!
 

CEBs - Sementes da Igreja renovada
 

O fato

Ao início dos anos 60 surgiu entre as classes populares do Brasil um novo modo de a Igreja ser: as Comunidades Eclesiais de Base. As CEBs são grupos de 20 ou mais pessoas que se reúnem uma ou duas vezes ao mês na capela da roça, no sítio do pequeno agricultor, no salão da casa paroquial, no centro comunitário da vila, no barraco da favela, para refletir, nutrir e celebrar sua vida de fé.

São comunidades porque as pessoas se conhecem pelo nome, partilham suas vidas e seus problemas, põem em comum seus bens e seus esforços, lutam juntos por melhorias no bairro, conquista da terra ou da moradia, uma vida melhor. São edesiais porque o eixo em torno do qual giram é a Palavra de Deus, o uso da Bíblia dentro da realidade conflitiva em que vivem, a comunhão com a Igreja, da qual são células vivas. São de base porque integradas por subempregados, aposentados, jovens, lavradores, operários, donas de casa, enfim, gente pobre e oprimida que forma a base da sociedade.

Inúmeros líderes e dirigentes de movimentos populares, sindicais e políticos tiveram nas CEBs o início da sua atuação a serviço da conquista de uma nova sociedade brasileira, sem oprimidos e opressores.

O trabalho das CEBs identifica-se com a atuação pastoral de movimentos eclesiais como a PO (Pastoral Operária), a CPT (Comissão Pastoral da Terra), o Cimi (Conselho Indigenista Missionário) e tantos outros setores de pastoral especializada.


A Igreja que a gente quer

Como deve ser uma Igreja germe e ferramenta do Reino?

A Igreja católica no Brasil e na América Latina passa por uma profunda mudança. Mudança de qualidade, como a semente da laranja vira árvore, laranjeira. Laranja e laranjeira têm a mesma raiz. Mas são de qualidade diferente: semente é diferente da árvore que é diferente da fruta. Assim a Igreja vem plantando uma semente no chão da vida do povo. Semente fica debaixo do chão, a gente não vê. Pode até pisar em cima dela! Mas ela acaba germinando e produzindo frutos.

Que frutos esperamos das sementes lançadas pelas Comunidades Eclesiais de Base e por todos esses grupos pastorais identificados com a opção pêlos pobres?

Quem planta café não espera colher batata. Espera colher café. Assim, vejamos o que esperamos colher dessas sementes que nas cidades e no campo a gente simples do povo está plantando no chão da vida com a força da fé:

Uma Igreja povo de Deus

Uma Igreja que não seja só de padres e bispos. Seja também dos leigos. O engenheiro pode saber projetar a casa, mas é o trabalho dos pedreiros que põe a casa de pé. Cálculo de engenheiro não basta para fazer a casa, fica no papel. Família nenhuma mora em papel, mora é em casa de pedra, tijolo, madeira e telha. Quem faz a casa é o trabalho do pedreiro, do carpinteiro, do bombeiro, do eletricista etc. Mas casa sem cálculo e sem planta sai errada. Por isso o engenheiro é importante. Porém, sozinho ele não ergue a casa.

O mesmo acontece na Igreja: padres e bispos sozinhos não são a Igreja nem fazem a Igreja. A Igreja é o povo que tem fé em Deus e amor ao próximo. Dentro da Igreja cada um tem a sua função e serviço, como na construção da casa: um toma conta da capela, outro cede sua casa para a reunião da comunidade, outro anima o grupo de jovens, outro organiza as festas, uma equipe visita os doentes, outra promove os cursos bíblicos, outra ensina o catecismo às crianças etc. O padre é como o engenheiro: anima a comunidade, ajuda na orientação. Mas qualquer obra pode ser tocada sem que o engenheiro fique lá o dia todo. Os operários sabem fazer as coisas. Na Igreja também todos devem saber fazer as coisas, pois todos são responsáveis: leigos, religiosas, padres e bispos. Ninguém é melhor do que o outro, pois todos têm a mesma importância. O dono da casa é Jesus Cristo. Cada um de nós é um tijolo da casa.

Uma Igreja popular

Igreja feita de povo e não apenas de gente que tem dinheiro e prestígio. Jesus e os apstolos eram pobres e conviviam com os pobres. A Igreja também deve ser simples e nela os pobres devem ocupar os primeiros lugares. Como Jesus deu preferência aos oprimidos, a nossa Igreja deve dar preferência à gente trabalhadora, ao operário, ao desempregado, ao jovem que estuda e trabalha, ao aposentado, ao agricultor, ao sem-terra, ao bóia-fria. Na sociedade capitalista o pobre serve ao rico. Na Igreja o rico deve servir ao pobre (Mc 10, 17-22).

Uma Igreja comunidade
Massa é diferente de comunidade. Quando o templo está cheio de gente assistindo à missa, pode ser que aquelas pessoas nada tenham de comum entre si: isso é massa. Na massa as pessoas estão umas ao lado das outras. Na comunidade as pessoas estão umas em frente das outras, se conhecem pelo rosto e pelo nome. Há algo de comum entre elas. Por isso devemos dinamizar a formação de CEBs. Onde se reúne um grupo de cristãos da mesma escola, rua, bairro, local de trabalho ou área rural, aí existe uma CEB, uma comunidade de Igreja.

Uma Igreja cristocêntrica

Eta palavra complicada! Mas significa coisa bem simples: Igreja onde o Cristo esteja no centro. Tem muita igreja por aí onde o centro é ocupado pelo dinheiro que os fiéis podem pagar pelos serviços litúrgicos. Ou no centro estão a Nossa Senhora Aparecida, o Papa ou o São Benedito. Tudo isso tem o seu valor, menos negar serviços litúrgicos ao pobre que não tem como pagá-los. Como também não faz sentido enfeitar a igreja luxuosamente para o casamento do rico e exigir dos trabalhadores terno e gravata e vestido de noiva! Não devemos trocar o motor pelos acessórios. Carro depende é do motor. Na Igreja o motor é Jesus Cristo e o destino, o Reino. Ele está vivo entre nós e confia em cada um de nós.

Vamos fazer em grupos

Uma representação teatral, improvisada, mostrando:

1. Como era a Igreja de antigamente.
2. Como vemos a Igreja hoje.
3. Como queremos que a Igreja seja.

sábado, 30 de junho de 2012

Um tal Jesus - Capítulo 3: Uma voz no deserto


Capítulo 3

UMA VOZ NO DESERTO

No ano 15 do reinado do imperador Tibério, sendo Pôncio Pilatos governador da Judéia, Herodes vice-rei da Galiléia, seu irmão Felipe vice-rei da Ituréia e Traconítide e Lisânias vice-rei da Abilene, sob o sumo sacerdócio de Anás e Caifás, Deus falou a João, filho de Zacarias, no deserto. João havia passado muitos anos no monastério do Mar Morto. Mas quando sentiu o chamado de Deus, foi pregar percorrendo as margens do rio Jordão e proclamando um batismo de conversão...



Batista: Assim falou o profeta Isaías e eu repito agora! Abram caminho! Deixem passar o Senhor!... O libertador de Israel está chegando e vem depressa!... Vocês não escutam seus passos?... Abram passagem, deixem livre o caminho para que ele possa chegar até nós!



Os gritos de João ressoaram em Betabara e na cidade vizinha de Jericó e seu eco chegou a Jerusalém e se estendeu, como fogo na palha, por todo o país de Israel. Estávamos ansiosos por escutar uma voz que reclamasse justiça e anunciasse a libertação do jugo romano. E viemos do norte e do sul para conhecer o profeta do deserto...



Meu irmão Tiago e eu havíamos viajado desde Cafarnaum. Viemos com nossos companheiros de sempre, Pedro e André, também irmãos, também pescadores do lago Tiberíades e, como nós, simpatizantes do movimento zelota...



Tiago: Este é o homem de que precisamos, Pedro! Diabos, este profeta não tem pêlos na língua e cospe verdades tanto nos de cima, como nos debaixo!

Pedro: O que estamos fazendo aqui, Tiago? Chame seu irmão e vamos ouvi-lo mais de perto. Ei, você, André, vamos mais para lá, ainda que tenhamos de abrir caminho a cotoveladas. Que viva o movimento!



Já fazia setenta anos que nosso país era uma colônia do império romano. O povo estava desesperado por causa daquela escravidão, pela fome e pelos pesados impostos que nos obrigavam a pagar. Por isso, muitos de nós olhávamos com simpatia o movimento zelota que conspirava contra o poder romano e tinha suas guerrilhas espalhadas por todo o país.



Pedro: Que viva o movimento!

Todos: Viva! Viva!

Tiago: Morram os romanos!

Todos: Morram! Morram!



Os zelotas estavam bem organizados, sobretudo na nossa província, a Galiléia. Pedro, André , meu irmão Tiago e eu formávamos um pequeno grupo de apoio em Cafarnaum. Falávamos a todos do movimento e, logicamente, nos metíamos em todo tipo de protesto e confusão que se armava. Bem, alguns de nós armavam... E creio que quando fomos ver o profeta João foi para isso. Depois, ao ouvi-lo falar, nos demos conta de que a coisa também interessava a nós...



Batista: Os de cima gritam: paz, paz, que haja paz! Mas como pode haver paz se não há justiça?... Que paz pode haver entre o leão e o cordeiro, entre o rico e o pobre?... Os debaixo gritam: violência, violência!... Mas dizem isso por ambição, porque também querem subir e abusar dos que ficam em baixo. Têm um leão escondido debaixo da pele de cordeiro!... Assim diz Deus: Todos têm de mudar de atitude. Todos têm de se converter!...



O calor era sufocante. Os mosquitos formavam uma nuvem sobre nossas cabeças... Pessoas de todas as partes, camponeses, artesãos dos povoados, comerciantes de lã, cobradores de impostos, mendigos, doentes, prostitutas e soldados, todos estávamos ali... Tampouco faltavam os vendedores entre o povo, vendendo biscoitos e tâmaras...

Batista: Arrependam-se antes que seja tarde demais!... Os que querem escapar da cólera de Deus, entrem na água, pois este rio limpa o corpo e limpa a alma!... Metam-se na água antes que chegue o fogo e os transforme em cinzas!



Na areia fina da margem amontoavam-se as sandálias e os mantos. João, apoiado numa pedra e com a água até à cintura, ia agarrando pelos cabelos aqueles que queriam se batizar. Afundava-os no rio e quando pensavam que iam se afogar, o braço do profeta os tirava de repente e os empurrava para a margem... Foram centenas os que receberam este batismo de purificação.



Pedro: Olhe, André, veja como brilham os olhos dele, parecem dois carvões acesos!

André: Este profeta é o próprio Elias que desceu do céu em seu carro de fogo! Elias em pessoa!

Pedro: Isto é o fim do mundo!

Tiago: Fiquem aqui, seus palermas! Deixem-me ver o profeta!



O profeta João era um gigante tostado pelo sol do deserto. Vestia-se com uma pele de camelo amarrada com uma correia preta. Nunca havia cortado o cabelo que já lhe chegava até à cintura. Quando o vento soprava, parecia a cabeleira de uma fera selvagem. Era o profeta Elias quem falava por sua boca. Bem, na realidade, João não falava: gritava, rugia, e suas palavras estralavam como pedradas em nossas cabeças.



Batista: Abram o caminho, um caminho reto, sem curvas nem desvios, para que o Libertador chegue mais depressa! Tapem os buracos para que seus pés não tropecem! Derrubem as montanhas se for necessário para que não tenha de dar nenhuma volta e se demore!... Não, não se demora! Já está vindo!... Não escutam seus passos?... Não sentem o seu cheiro no ar?... Já vem o Messias, o Libertador de Israel!



Pedro: Puaff!... Aqui o único cheiro que se sente é de urina. Já estou enjoado...

André: Você é mesmo um porco, heim, Pedro! Cale a boa e escute o que o profeta está falando.

Pedro: Está bem, está bem, André. Eu é que não sei o que vim fazer aqui. Esta gente se mete no rio e faz tudo lá dentro. Em seguida vai outro e sai mais sujo do que entrou. E o profeta fica falando que o rio limpa e purifica, puaff!...

Tiago: Tem razão, Pedro! A água já está parecendo uma sopa e as cabeças das pessoas, os grãos de bico...

Pedro: Ei, vamos para o outro lado, companheiros, isto já está me dando nojo...

André: Olhem só meu irmão dando uma de gente fina... Aqui o que mais fede é você mesmo, Pedro.

Pedro: Ah, é, seu idiota!... Pois você vai engolir essas palavras agora mesmo.

João: Pare com isso, Pedro! Vamos sair um pouco! Não há quem agüente esse calor!...



Saímos um pouco dali para podermos respirar. Pedro estava bravo com André e André bravo comigo e Tiago bravo com todos. Nós quatro éramos bons amigos, mas sempre estávamos brigando...



Tiago: Bom, afinal de contas, do lado de quem está o profeta? Não ouviram o que ele disse? Que todos os de cima e os de baixo, tínhamos de nos converter?

João: Isso tudo é conversa mole, Tiago. Que ele diga claramente com quem está. Apóia os zelotas ou não? É isso que ele tem de dizer.

Pedro: Muito bem, João. Que viva o movimento!

André: Ai, cale essa boca, pô! Qual é que é, Pedro, você parece um papagaio, repetindo sempre a mesma coisa!

Pedro: E você parece que já se deixou embobar pelo batizador.

André: Eu estou com ele. Diga o que disser, apóie a quem apoiar, estou com o profeta.

João: Mas o profeta apóia o movimento ou não? Isto é o que eu quero saber, André.

André: Pois vai lá você mesmo e pergunte pra ele, João. Meta-se no rio e pergunte-lhe de que lado ele está. Você se chama João que nem ele, é seu xará. Na certa ele lhe responde.

João: Pois é isso mesmo que eu vou fazer. Eu não tenho medo nem desse profeta nem de ninguém. Se está com os zelotas, bem-vindo seja. Se está com os romanos, tomara que se afogue  nesse rio fedorento.

André: Não grite tanto, João. A coisa não é tão simples assim!

Tiago: A coisa é muito simples, André: é dar um pontapé no traseiro de todos os romanos e acabou-se!

Pedro: Olhem só! Quem escuta você falar, Tiago, pode até pensar que você é um dos sete cabeças. Vamos ver, ruivão, o que é que você fez até agora pelo movimento, diga? deu meia dúzia de gritos em meia dúzia de povoados?!

Tiago: E você, Pedro, o que é que fez, heim? Atirar pedras de cima dos telhados?... E não me venha de novo com aquela de que cuspiu no capitão romano, porque aqui até os meninos cospem nos soldados!

Pedro: Ah, você não vale nada, Tiago, espere aí que eu vou fechar essa sua boca...

João: Parem com essa discussão, caramba! Vamos ver quem de nós tem coragem de perguntar a João de que lado ele está... Essa é a minha proposta...

Pedro: E eu proponho que a gente vá um pouco mais longe. Esse fedor está chegando até aqui. Eu já estou com o estômago embrulhado. Andem, vamos...



Nós quatro nos distanciamos para comer algumas azeitonas, mas quando saímos na estrada, tivemos uma grande surpresa...



Pedro: Olhem só, aquele cabeção que vem vindo lá embaixo não é o nosso amigo Felipe, o vendedor? Felipe!... Demônios, agora sim é que esse negócio vai ficar bom!

Felipe: Caramba, Pedro. Pedro pedrada. Como vai essa vida, rapaz?... E você, Tiago, boca grande! E João, o briguento!... Que confusão estarão armando por aqui os filhos de Zebedeu?!... E vejam também o magricelo do Andrezinho! Pelas panturrilhas de Salomão, estou muito contente de encontrar vocês.

João: E nós também, Felipe, o maior charlatão de toda a Galiléia!

Tiago: Ô, Felipe, não seja tão mal educado. Quem são estes dois que estão com você?

Felipe: Puxa vida!... É verdade, estava esquecendo de fazer as apresentações... Nata e Jesus..., apresento a vocês esses quatro bandidos, pescadores de caranguejos em Cafarnaum! E estes são dois malandros piores que vocês. Este se chama Natanael, um israelita de boa marca, vive em Caná, trabalha com lã e é mais sovina que uma ratazana e tem uma mulher que nem o rei Davi agüentaria. E este outro, um moreno simpático de Nazaré. Chama-se Jesus. Conserta desde portas até ferraduras. É um faz-de-tudo!... Ah, e tem mais: quando empresta dinheiro nunca cobra juros... O ruim é que nunca tem, ele é que sempre pede emprestado! Senhores, está dito tudo!

Pedro: Pois então, é como se nos conhecêssemos toda a vida. E agora vamos encher o bucho que já está na hora.



E lá fomos nós sete comer e conversar no meio daquele burburinho de gente. Quando caia a noite, todo mundo se esparramava pela margem do rio. Procuravam galhos secos e acendiam fogueiras para esquentar-se. Outros cortavam folhas de palmeira e faziam tendas para dormir de baixo. O Jordão estava repleto de gente. Todos nós tínhamos vindo procurar o profeta João e João continuava procurando o Messias, o Libertador que ele anunciava.


Comentário
Tanto o Evangelho de Marcos como o de João iniciam os relatos da vida de Jesus com a pregação do Batista às margens do rio Jordão. É uma forma de destacar a estreita relação que une a mensagem de justiça do grande profeta com a Boa Notícia de Jesus.



As palavras do Batista conservadas nos relatos evangélicos são ataques acesos contra as injustiças e o estado de corrupção do país, começando pelo próprio Herodes, rei da Galiléia, a quem João criticava em público. Por outra parte, João entendia sua missão como trabalho de preparação para a chegada do Messias que inauguraria um mundo novo baseado na igualdade de todos os homens e na soberania de Deus.



Para preparar este mundo novo, além de seus proclamas e discursos, João usava um rito que se tornou muito popular: o batismo. As pessoas que vinham para ouvi-lo confessavam seus pecados e João as submergia nas águas do Jordão. Era um símbolo de limpeza: a água purifica o sujo. E também de renascimento, de começar de novo, deixando para trás o mundo antigo do fatalismo e da injustiça: da água nasce a vida, na água começa sempre a vida. Este batismo de João não era um rito mágico. De nada servia se não havia uma mudança real nas atitudes dos que se batizavam. Eram batismos coletivos. As massas populares - principalmente os pobres de Israel - aderiam à mensagem de João e entravam no rio preparando assim a chegada do Messias.



João pregou e batizou no deserto, às margens do rio Jordão, em um vau chamado comumente Betabara. Atualmente, este lugar é zona fronteiriça entre Israel e a Jordânia. O Jordão “que desce” é praticamente o único rio que rega a terra de Israel. Nasce no Norte, perto do monte Hermon, e desemboca nas águas salgadas do Mar Morto, o lugar mais baixo do planeta, um fosso de quase 400 metros abaixo do nível do mar.



A austeridade de João, o Batista, refletia-se em sua vestimenta e em sua comida, que granjeou também popularidade entre as pessoas que viam naquele homem curtido e selvagem o profeta Elias que regressava para defender o seu povo. Os longos cabelos de João era costume entre os que se comprometiam a um serviço total a Deus: voto dos nazireus (Jz 13,5; Sam 1,11).



Fazia já uns setenta anos que a Palestina era uma colônia romana. Naquela época, Roma era o império mais forte da terra, como hoje o são os Estados Unidos. A maioria das nações conhecidas então eram províncias submetidas ao imperialismo romano. Isso significava nos países dominados: governos dependentes, ocupação por exércitos estrangeiros e exploração do povo de quem se cobrava impostos excessivos e ao qual se controlava, impedindo-lhes a participação nas decisões políticas e econômicas. A capital do império - Roma - foi destruída quase quinhentos anos depois da morte de Jesus.



Tanto na Galiléia como na Judéia, existia um grupo descontente com o domínio romano. Entre os opositores, destacava-se o grupo ou partido dos zelotas. Atuavam na clandestinidade, alguns como guerrilheiros, especialmente na região nortista da Galiléia, onde o controle de Roma era mais fraco. Os zelotas eram nacionalistas, pregavam a Deus como único rei e se opunham a todo poder estrangeiro. Negavam-se, por isso, ao pagamento dos impostos e aos censos ordenados pelo império. Os camponeses e pobres de Israel, espoliados pelos tributos, simpatizavam com o movimento e protegiam seus membros. Os zelotas também tinham um programa de reforma agrária: proclamavam que a propriedade devia ser justamente distribuída, pois as diferenças sociais eram extremas. Proclamavam também que as dívidas deviam ser canceladas, inspirando-se para isso na lei mosáica do Ano Jubilar. O grupo zelota parece ter sido fundado por um tal Judas, o Galileu, pouco depois do nascimento de Jesus, ao colocar-se à frente do povo que se negava a pagar impostos. A rebelião popular foi sufocada pelos romanos com sangue e fogo. A palavra “zelota” vem de “zelo”: zelosos da honra de Deus, apaixonados, fanáticos. O grupo mais ativo dentro do partido zelota era o dos sicários: terroristas que levavam sempre debaixo da túnica pequenos punhais (sicas) e praticavam com freqüência atentados contra os romanos.



Entre os discípulos de Jesus é muito provável que muitos pertencessem ao movimento zelota. O Evangelho fala claramente de um ao chamá-lo de “Simão, o zelota” (Lc 6,15). O sobrenome de Judas “Iscariote” faria referência à sua filiação “sicária”. Por outro lado, o apelido que Jesus dá aos irmãos Tiago e João “boanerges” (filhos do trovão) e o sobrenome de Pedro (barjona) são, para alguns autores especializados no tema dos zelotas, nomes de guerra, usados pelos discípulos.



(Mateus, 3,1-6; Marcos 1,1-8; Lucas 3,1-6)